domingo, 12 de dezembro de 2010

O gato da consciência.

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Os gatos têm poderes. E Nosso Senhor deve saber o que faz...

O meu quarto não me diz muito. Ou melhor, é o meu refúgio. Mas está cheio de muito nada. De muitas horas vazias, de horas sem fazer nenhum. E de horas más. Horas de que não gosto de me lembrar. Mas aparentemente o nosso cérebro tem memória espacial. Deve ser por isso que o meu quarto às vezes fala só por ter quatro paredes...
De qualquer forma, não me apeteceu subir quando cheguei. Gosto da imagem que tenho debaixo do poste. E não me apetecia ouvi-lo. Gosto de pensar iluminado. Tenho saudades de quando falava horas comigo mesmo e me ria no fim por não ter dito nada que jeito tivesse. Pensava que devia ser doido. Falava a sério e sobre coisas sérias, mas acho que gostava mesmo era de me ouvir. E isso ainda hoje me dá para rir. Bons tempos...
Não subi, como dizia. O meu amigo já me cumprimentara à entrada do Bob. Não liguei muito. Tenho de ir e tu és mais um... Lá me pus à luz. Tenho de fazer um quadro daquilo.
Conversa daqui, conversa dali, ele volta, procurando novos carinhos. Que gato esperto me saíste. Sabes bem o que queres. Fascino-me com o comportamento animal, é facto. Se assim não fosse, não conseguiria ficar horas a olhar para as galinhas do meu pai. Mas os gatos ainda são outra coisa.
Tentas logo subir-me para o colo. Não pode ser, vou ficar todo cheio de pêlo. Mas eu faço-te festas… Paro para falar e sinto a tua pata. Queres mais. Faço-te a vontade de novo e tentas outra vez. Não desistes. Deves estar mesmo carente. Mas até pareces bem tratado. Estás gordinho e tens coleira. Não te percebo.
Não paras de olhar à tua volta. Mas é verdade, há muita actividade na noite, hoje. És um querido, de qualquer forma. Aqui, comigo, hoje. Distraio-me de novo e a tua pata lá está. Mas desta vez também me olhas. E só agora reparo… que és cego… Sinto-me enternecido.
Diz-me porque te julguei sem saber. Diz-me porque logo o fiz, sem te conhecer. Eu, que, aliás, agora que te olho, sou como tu. És normal e corrente e não faltam gatos com o teu pêlo, num mundo onde isso parece ser tudo quanto importa. E és cego. Quem te quererá, amigo? Soa mal mas às vezes parece que isso basta, sermos diferentes. Ainda assim, tudo quanto queres é colo. Festas e colo. Gato necessitado, é o que tu és, penso. Mas não te posso deixar, vais encher-me de pêlo e eu posso ser alérgico.
De novo me ocupo e penso agora em deixar-te. Foste um bom companheiro nesta hora. Já nos vejo em tal jornada épica, nem imaginas. Tenho pena de te deixar. Mas tenho de ir. E és só um gato, também.
depois de vir embora me dou conta de que te tratei mal. Fiz-te festas, sim. Mas não te dei colo. E tudo quanto querias era colo. Estou com pena tua agora. Quase com remorsos.
É mais comum do que possas pensar. Estúpido, ainda assim, é verdade. Mas pelos mais pequenos incómodos, as pessoas negam aos outros aquilo de que eles precisam e querem, limitando-se ao que não estorva, ou não lhes morde a consciência. Ao que lhes chega. São egoístas por conveniência. E esperam que isso baste para nos ter ali. Ficarmos pelas migalhas.
O pior é que és a perfeita analogia disso. E fiz-te o mesmo. Talvez fosse melhor se te tivesses ido embora, talvez eu tivesse pensado nisto mais cedo assim. Mas deixa, o meu descanso é que um dia ainda terás colo. Tal como queres.
Fico contente que tenhas coleira, que estejas bem nutrido e que, por isso, possa supor que tens um porto de abrigo. Ainda bem que há gente que não liga só ao pêlo. E que sabe reconhecer um gato por aquilo que é. A minha consciência agradece.

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