domingo, 17 de fevereiro de 2008

Tudo caduca.

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“Se alguém me tivesse mostrado o futuro, decerto muitas lágrimas teriam sido evitadas. […]”.
Quero voltar a ser criança.


Crescer nunca me assustou. Até porque quando alguém me dizia ‘Quando fores grande, vais querer ser pequenino outra vez…’ eu respondia sempre muito indignado ‘Não vou nada! Eu quero é ser grande!’. Mas quem quer que me tenha dito isso, tinha razão. Ou pelo menos hoje tem razão.
Não é por causa do amor, nem das (des)ilusões que me trouxe que hoje digo isto. É propriamente por causa da vida, das coisas tortuosas através das quais ela nos leva.
O que sinto hoje é nostalgia, talvez a nostalgia do bem perdido que tanto faz Pessoa clamar pela infância. Hoje estou com ele. Tenho vindo a estar…
É pela inocência, pela crença num mundo cor-de-rosa de pessoas amarelas, azuis e púrpura. É pela desinibição, pela genuinidade das crianças. Talvez até pela sua sensibilidade ignorada. Pelo encanto de certos actos.
Crescendo, não deixamos de apreciar essas preciosidades daqui. Mas crescidos não podemos clamar-nos nós próprios. Somos já pessoas com passado e, quem sabe, com o futuro cada vez mais próximo. Podemos dizer que já deixámos marcas da nossa passagem.
Mas há tanta coisa de que sentimos saudade e tanta coisa que perdemos pelo caminho em tão pouco tempo que nos chegamos a perguntar ‘porquê? de que adiantou, afinal?’ ou até ‘quem diria que hoje seria assim?’. Damos connosco a dizer ‘se soubesse o que sei hoje…’.
Crescemos. Magoamos. Somos magoados. Desiludimos. Somos desiludidos. Ganhamos. Perdemos. Choramos. Rimos. Recordamos. Sabemos. Desejamos. Amamos. Vivemos. Envelhecemos. E a vida deve passar muito depressa com tanta coisa. Mas só por hoje, quero ser criança. Deixa-me. Eu amo-te.
“Se alguém me tivesse mostrado o futuro, decerto muitas lágrimas teriam sido evitadas. Mas viver sem lágrimas não é viver. O sentido da montagem humana só vem se […] formos ao encontro do que nos espera, na certeza de que tudo na vida tem o estigma da caducidade. Só amar não acaba.” - Frederico Lourenço


[14 de Fevereiro de 2008]

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