sábado, 2 de agosto de 2008

Não vejo só assim.

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Não há nada que seja apenas o que é. É tudo relativo para quem entende.

Sim, o tudo e o nada não existem. Não há extremos aqui. Não há certezas absolutas, previsões infalíveis, conhecimentos inquestionáveis. Nada há. Há consensos, pontos intermédios, teorias conciliadoras, tratados. E, se há coisa que me assusta, é a total relatividade das coisas, a ambiguidade sempre existente, a dualidade constante e persistente. A relativização dos acontecimentos, dos actos, dos sentimentos, da emoção. Tudo.
Não sei avaliar o quanto custa a consciencialização do mundo relativo. Mas é, para quem tenta entender, algo incontornável com o decorrer do nosso tempo, de tantas as vezes que nos interpela. A percepção consegue ser, de facto, estarrecedora.
Quando feita, se quisermos dizer que a algo chegámos, apenas poderemos dizer verdadeiramente que a pouco foi – se pouco se pode considerar. Porque uma tomada de consciência é o que é. Uma tomada de consciência. E a consciência apenas nos deixa, se alerta, viver mais tranquilos com ela mesma e connosco próprios. Praticamente, de nada nos serve a percepção do mundo relativizado e relativo por natureza. Se virmos as coisas praticamente. Porque ser consciente é diferente. É saber com o que se pode contar, o que nos pode esperar. Saber que nunca haverá consenso aprazível ao extremos. Saber que seremos forçados a tomar decisões, opiniões, lados. E que nunca, por isso, conseguiremos erradicar o conflito das nossas vidas e do nosso mundo. Haverá sempre atritos, ressentimentos e indignações.
O facto é que, conquanto possa existir a consciência da variedade de interpretações de tudo, não nos resignamos a pensar como o outro, a tornar intrínseca essa consciência. Temo-la. Mas não a utilizamos. Somos egoístas no nosso íntimo. Percebo isso, entendendo o egoísmo como meio de, individualmente, preservar e manter a identidade própria. Mas quem mostra ser egoísta é-o socialmente. E o Homem não pode ser egoísta a esse extremo. Sendo o mundo relativo, porque não podemos ser nós consensuais?
A revelação do mistério advém, ironicamente, da dualidade. Não podemos ser consensuais porque há divergências ideológicas. Há o certo e o errado. E o que para nós é errado pode ser certo para outro. E não podemos concordar e aceitar. Recusamos. Refutamos. E, embora tentemos explicar, o outro, tal como nós faríamos, recusa-se a ver a diversidade estrutural do mundo. Chegamos a lado nenhum.
E, depois disso, ficamos. Olhamos e pensamos que nem a consciência de algo nos serve.
Porque tem o Homem de ser tão complicado? Não podia apenas ser?
Às vezes penso que criamos tanto e tudo o que criamos é em vão. Porque quando desaparecermos, tudo será nada. E não conseguimos criar nada que faça sentido sem a nossa razão. Não entendemos a relatividade da nossa existência e, por isso, nunca verdadeiramente criaremos.
Mas também acho que não nos é permitido achar o consenso. Entender a dualidade não consta das nossas capacidades. Nem pode algum dia constar.


[24 de Julho de 2008]

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