“…I didn't think I'd catch fire when I held my hand to the flame”
from ‘Talons’ – Bloc Party
Pensar em
estar à vontade é bonito. Ideal, sem poder ser mais literal. Mas estar à
vontade é estranho. Ser socialmente próprio e si próprio é, aliás, um conceito
exclusivo do animal social humano que, como tantos outros, não deixa antever
grande força motriz além do desejo de aceitação social em conformidade com as
exigências da consciência e do carácter, o que implica desde logo uma
estranheza inerente e intrínseca. Muito característica de tudo o que conhecemos
e que sabemos ser como é já desde antes de termos consciência disso. Torna-se
curioso também.
O que é dizer muito e dá já um tom demasiado sério à conversa.
Mas é
verdade. É estranho. Habituei-me demasiado à palavra e isso começa a
irritar-me, mas nenhuma outra agora me ocorre que o descreva de tão fiel forma.
Olhar à volta e pensar que aquele pode saber, que aquele provavelmente sabe, ou
que aquele pode comentar, e que provavelmente o fará. O estigma de uma
identidade simplificada e reduzida a uma palavra consegue ser por vezes mais
asfixiante que libertador.
Dei
comigo a questionar-me sobre o valor disso. O que de facto é justo dar por uma
igualdade que, pelo menos por um período ainda ignorado no tempo, não vai
existir completamente? Não faço a pergunta realmente. Acho que, mesmo tal como é,
essa liberdade vale muito, se não mesmo quase tudo. Mas lutar por um
meio-estigma, ou por uma estereotipização velada, soa a enganoso. Sei que me
engano a pensar sozinho e em círculo. Fazer de advogado do Diabo comigo mesmo
enquanto dactilografo simultaneamente pode enlouquecer-me a mim e ao leitor
mais desprevenido.A conclusão a que chego, que disso nada tem, é a de que mundo não é perfeito nem justo. E as pessoas também não. Vão falar, vão olhar, vão comentar. Mas talvez depois esqueçam. E se, pela primeira vez, me julgarem por aquilo que sou, talvez depois as consiga prender com quem sou. De resto, há que lidar com o desconforto. E pensar que nem só uma das partes perde. Porque às vezes penso no quanto em certas alturas me é difícil aceitar o potencial humano que posso ter de repudiar do meu percurso existencial, mas esqueço-me de que os outros podem sentir o mesmo em relação a mim. Custa-me chegar às mesmas respostas a que já cheguei e elas ainda condicionarem a existência das perguntas. Queria ser mais corajoso, queria ser seguro o suficiente para não precisar de ser levado de arrasto, ainda que não contrariado, para as coisas. Para conseguir dar primeiros passos. Para não perder esse potencial que pode estar a passar-me ao lado, e com o qual sofro por não saber o que fazer quando não o faz.
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