
Não, deixa. Não faz mal. Pelo contrário.
Sentia-se capaz de cometer, de uma vez por todas, a sua maior loucura. Odiava-se por saber que nunca conseguira fazê-la. Sofrer, todos sofremos e ninguém quer. Mas agora nem sequer sabia. Era, em todo o caso, um amorfo. Desejaria talvez a morte, se não prezasse tanto estar vivo. Nem isso sabia justificar. Nem o por quê… Era dia negro, indubitavelmente.
Enojava-se por ter plena consciência de que até já a si próprio mentia. Era vulgar e corrente. O mais sensaborão dos homens escondido por detrás de filosofias que admirava e sentimentos que outrora sentira e contra os quais se sentia agora imune. Não seria ele outro como os que tanto criticava e clamava detestar…?
Tinha existência própria. Ninguém era capaz de o conhecer verdadeiramente. Nem nunca ninguém seria, pois tinha-se como o seu maior tesouro. Moldava o seu mundo como queria. As dimensões eram apenas vontades e percepções suas. Mas sabia não ser um monstro. Vivia dentro dele um, mas não vivia só. A simbiose – imperceptível…
A criança insegura, a vítima. O mundo ruiu. Guerras entre aliados, histórias recontadas, factos omitidos e subtilezas agrestes com as quais não podia ter contactado. Dilemas. Identidade dispersa. Padrão errante.
Dividiu-se. E perdeu-se.
Agora, ansiava por mudanças. Mudanças drásticas. Não queria mais sentir-se pressionado. Queria poder crescer livremente e à sua maneira. Queria que esse rasto desaparecesse. Queria começar de novo. Tudo. Ter uma hipótese.
No mundo, havia crescido por si só. E não queria que isso mudasse, nunca. Não queria mais egoísmos e desmazelos a importuná-lo. Não queria ser ignorante. E queria ser feliz, encontrar o que há tanto tempo perdera.
Aqui começava o ódio próprio… Se não conseguisse, se não ganhasse a sua própria batalha interior, ficaria para trás, excluído. Vislumbrara já em si a existência de várias facções antagónicas de pensamento e tudo tinha uma explicação, mas, enquanto dantes vivia bem com isso, hoje sentia que ou se definia ou optava pelo degredo, que o levaria, em última instância, a lado nenhum.
O mais nojento de tudo é que se sabia definido. O que sentia era apenas frustração. E essa não tinha verdadeiramente justificação. Não havia lados, não havia facções, não havia crianças ou monstros. Era tudo imaginação. Tudo desconexo, descabido e sem sentido algum. Era ele. Crescia. E sentia-se cada vez mais esmagado com isso.
Não, sabia não ser capaz. Nunca havia tido a coragem necessária para o que quer que fosse. E, ao menos, agora era tudo apenas uma questão de esperar que o relógio avançasse.