
Fui estudar. Apanágio dos tempos recentes. Era na sua casa que o ia fazer. Que o íamos fazer. Levava-os comigo pela companhia e porque se estudava bem, em sua casa.
Era um sítio estranhíssimo. E não me lembrava nada dele assim. Um grande armazém pré-fabricado, genérico e impessoal e mesas de igual estilo com uma quantidade enorme de objectos junto às paredes. Objectos de museu, muito à British.
Estava relativamente cheio até. E a minha cabeça questionava-se e respondia-se sozinha naquele etéreo esforço masturbatório. Porque é que está aqui tanta gente?
Confessei-me imediatamente maravilhado com as peças que ali existiam. Não era eu que já conhecia o sítio? Eles arranjam uma mesa para estudarmos mas eu continuo a olhar à volta. Perguntam se não vou sentar-me, incapazes de compreender a minha admiração. Digo que já vou e ignoro os ‘pff’ risonhos, julgadores da minha distracção. Deixa-me ver o que há para aqui.
Madeira. Passo por antigas bestas, lanças, por aves raras paradas ameaçadoramente no tempo, adornos de outros tempos, por vénus africanas e até por uma floresta de pilares de ponta espiralada, ora finos ora nem tanto. Junto à parede. Tudo junto às paredes. E janelas pequeninas. Era uma colecção extremamente invulgar. Aos meus olhos, era. Não tinha ideia por que estaria aquilo ali. E porque quereria eu ter ido estudar para ali? O sítio era-me desconfortável e aquela exposição era desadequada. Havia ali qualquer coisa. Qualquer coisa de importante. Um qualquer segredo. Não. Era só uma colecção. Cala-te, cérebro.
Não sei, mas depois apareceu você. Chamou-me e assustou-me, mas soube logo quem era. Era você, só podia ser você. Claro, eu pensei nisso.
E naquele sítio, só em mim reparou. Era sua, claro. Nem tudo fazia sentido, mas haveria tempo.
O prémio era esse. Descobri-lo a si, ali. Naquela colecção. Frederico sorrindo.