
Saiu espontâneo. Daí não se perceber. Escrevi a falar. Por isso tu nem sempre és tu, mas antes eu e também eles. Mas eu sou eu.
Não sei porque faço isto. Não sei porque te falo. Não sei porque te escrevo. Só uma pessoa eu quereria que agora me ouvisse. Não tu. Tu não me interpelas, não me respondes, não te revês em mim, eu não fui importante para ti. Nada mais fazes senão ouvir e calar. Por isso é que eu não dava para psiquiatra.
Tenho de me deixar de monstros, de pessoas más, de alter-egos opostos a mim, de merdas. Sou só eu, sou eu sem saber. O que fazer, o que pensar, o que desejar, o que buscar. Não quero ser ouvido. Quero apenas não me sentir o único.
Hoje enchi-me de solidão. Sozinho aqui, sozinho ali, sozinho muitas vezes, sozinho às vezes sem querer e outras por necessitar. Mas faz-me falta o toque, a companhia. Mais do que em qualquer outra noite. Porque há dias de tudo. E sempre haverá. Sempre há dias de tudo. Mesmo quando tudo está bem, mesmo quando tudo parece estar bem. Até nesses dias, que não duram. Não duram o dia. E eu não os posso estar sempre a fazer aparecer, acho que não consigo. Um dia estas noites levam a melhor. Porque quando o dia se faz bom, não há noite que o abafe. Eu precisava disso quase sempre. Mas quando a noite se mostra, má e desesperante como hoje, o dia parece já tão distante e já tão mal fadado que me pergunto se lá chegarei e se valerá a pena. Se tudo isto valerá a pena.
Mas tenho é de me deixar de merdas, já tinha dito. Pintar o cabelo de vermelho, pintar a manta, ser e fazer como quiser, sem ligar a patetices, a figuras ou ao escândalo. Fazer mais, ser mais. Ao menos o tempo passava mas ria-me, aproveitava e sempre via se conseguia ser mais feliz.
Um dia, sem saber como, serei. Mais que hoje. Devia deixar de me pôr a falar e a escrever para o boneco, fingindo que alguém irá perceber o que quero dizer. Mas a verdade é que monologando parece que a noite passa mais depressa. E sozinho consigo encontrar companhia. O meu amigo aparece sem conflito, fica ali. Ou então vai dormir, que não deve gostar que eu fale contigo ou escreva para ti.
Sei que precisas de tempo. Eu dou-to, mas sinto a tua falta. Talvez tu percebas. Talvez tu já tenhas tido noites assim. Talvez. Eu adoro-te, não te esqueças. Escrevi antes desta frase, que agora apaguei, de que servia que alguém nos compreendesse? O que queria eu, com isto tudo? Uma resposta não seria, que se não a tenho, sozinho não a encontrarei. Mas na solidão com que tenho tentado conviver, a quem tenho de me habituar e não fazer drama, venho a pensar que tentamos que alguém nos compreenda para que não nos sintamos sozinhos. Pensamento básico, bem sei. Mas não dá, não é? Nem sempre dá. Mesmo sabendo que alguém pensa em nós todos os dias, isso não nos chega. E queremos mais mas não podemos. Sofremos nesse dia, apertados sem saber porquê e o que fazer. Rumo fácil de perder e pôr em causa este.
Não quero com isto parecer nenhuma vítima. Sei que só escrevo dos momentos maus. Nos momentos maus, o que os faz ainda piores. Mas estas são noites que também passam. E passam mesmo com a noite. Sim, sabe que eu vou conseguindo ter momentos felizes. Tento pensar que quero um dia passar uma longa noite ou mais a contar-te histórias e a poder rir-me de recordações felizes. Mas tenho de as ir vivendo. Não será tudo mau. Talvez a felicidade se vá encontrando assim aos pedaços. Quando chegar a velho, quero perder-me em memórias. Lembrar-me disto e do resto. Ver o rumo que tudo tomará.
Sinto-o agora. Sinto-o mas é tão estúpido dizê-lo e dar-lhe forma dessa maneira. Quer falar. Ele sou eu, eu em conflito, eu sem saber. Sem saber o que mais pensar, o que mais querer, o que mais desejar, o que buscar, o que fazer. E é nestas noites que simplesmente não sei, não sei e não consigo. Nem dizer nem explicar. Não sei o que posso fazer para que isto passe. O estômago contorce-se, aperta-se e dá um nó bem justo, um nó que me abafa e me deixa sem saber se vai passar, como, quando. Só espero que de manhã passe.
Porque, agora que li, não sei. Quanto mais tu.