sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

To what matters.

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“We are mysterious creatures, aren't we? And at the end, so much of it turns out not to matter.”
from Evening

Sempre tive uma esperança estúpida de que algo mudasse. Que a minha vida mudasse, que o mundo mudasse, que algo nos pusesse à prova. A luta e o esforço dar-me-iam vida, impulso. Acho que só nesses momentos sabemos o que é verdadeiramente importante para nós.
Mas o tempo encarregou-se de me desacreditar. Parece-me agora que estava disposto a aceitar tudo até que a mudança viesse. E sem ela perdi o norte. A adaptação nunca é fácil mas faz parte do crescimento. Não sei bem para onde olhar agora, mas tenho de ver a minha vida como ela é. Deixar-me de coisas e aceitá-la, tal como ela é. Dar valor ao que existe, ao que posso ter. Quem vive na expectativa nunca vive o momento nem se apercebe do que o rodeia. E eu quero tanto isso. E tenho tanto, mas tanto para aproveitar. Com o tempo, vou assentar. A fantasia nunca ma vão tirar. Mas vou viver e não sonhar que vivo.
Dá-me experiências, dá-me sensações, dá-me sentimentos, dá-me beleza, dá-me liberdade. Dá-me força para amar. Para viver. What if we just sang and laughed together… for the rest of our lives…?

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ficção e imaginação.

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“Never recreate places from your memory. Always imagine new places!” […] “An elegant solution for keeping track of reality.”
from Inception

Por natureza, sou sonhador. Adoro dormir porque adoro sonhar. Porque adoro a surpresa do sonho. A trama que nunca se adivinha, ainda que o contexto nos possa ser familiar. Adoro a forma como a nossa mente consegue dar sentido ao que o não tem e materializar diante dos nossos sentidos o que conseguimos imaginar. Como as ambições e as expectativas tomam forma e nos tomam de assalto, dando-nos vontade de lutar, razão de viver e impulso de amar. Adoro o que consigo sentir. E, também, admito, o poder de consciência que consigo ter por vezes nessa realidade. É nela que frequentemente faço sentido. E é só nela que por vezes desejo perder-me.
Mas tudo tem sempre um outro lado. Dreams feel real while we're in them. It's only when we wake up that we realize something was actually strange. E nem sempre é bom perceber que afinal não aconteceu. Suponho que fantasiar, às vezes, só me confunde e engana. Mas não perder a noção do que é ficção e imaginação torna-se difícil, quando se tem muito a desejar.
Entretanto, vai-se sonhando. E às vezes isso também nos faz felizes. O importante é ir assentando os pés na terra de quando em quando. Ainda que custe.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O gato da consciência.

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Os gatos têm poderes. E Nosso Senhor deve saber o que faz...

O meu quarto não me diz muito. Ou melhor, é o meu refúgio. Mas está cheio de muito nada. De muitas horas vazias, de horas sem fazer nenhum. E de horas más. Horas de que não gosto de me lembrar. Mas aparentemente o nosso cérebro tem memória espacial. Deve ser por isso que o meu quarto às vezes fala só por ter quatro paredes...
De qualquer forma, não me apeteceu subir quando cheguei. Gosto da imagem que tenho debaixo do poste. E não me apetecia ouvi-lo. Gosto de pensar iluminado. Tenho saudades de quando falava horas comigo mesmo e me ria no fim por não ter dito nada que jeito tivesse. Pensava que devia ser doido. Falava a sério e sobre coisas sérias, mas acho que gostava mesmo era de me ouvir. E isso ainda hoje me dá para rir. Bons tempos...
Não subi, como dizia. O meu amigo já me cumprimentara à entrada do Bob. Não liguei muito. Tenho de ir e tu és mais um... Lá me pus à luz. Tenho de fazer um quadro daquilo.
Conversa daqui, conversa dali, ele volta, procurando novos carinhos. Que gato esperto me saíste. Sabes bem o que queres. Fascino-me com o comportamento animal, é facto. Se assim não fosse, não conseguiria ficar horas a olhar para as galinhas do meu pai. Mas os gatos ainda são outra coisa.
Tentas logo subir-me para o colo. Não pode ser, vou ficar todo cheio de pêlo. Mas eu faço-te festas… Paro para falar e sinto a tua pata. Queres mais. Faço-te a vontade de novo e tentas outra vez. Não desistes. Deves estar mesmo carente. Mas até pareces bem tratado. Estás gordinho e tens coleira. Não te percebo.
Não paras de olhar à tua volta. Mas é verdade, há muita actividade na noite, hoje. És um querido, de qualquer forma. Aqui, comigo, hoje. Distraio-me de novo e a tua pata lá está. Mas desta vez também me olhas. E só agora reparo… que és cego… Sinto-me enternecido.
Diz-me porque te julguei sem saber. Diz-me porque logo o fiz, sem te conhecer. Eu, que, aliás, agora que te olho, sou como tu. És normal e corrente e não faltam gatos com o teu pêlo, num mundo onde isso parece ser tudo quanto importa. E és cego. Quem te quererá, amigo? Soa mal mas às vezes parece que isso basta, sermos diferentes. Ainda assim, tudo quanto queres é colo. Festas e colo. Gato necessitado, é o que tu és, penso. Mas não te posso deixar, vais encher-me de pêlo e eu posso ser alérgico.
De novo me ocupo e penso agora em deixar-te. Foste um bom companheiro nesta hora. Já nos vejo em tal jornada épica, nem imaginas. Tenho pena de te deixar. Mas tenho de ir. E és só um gato, também.
depois de vir embora me dou conta de que te tratei mal. Fiz-te festas, sim. Mas não te dei colo. E tudo quanto querias era colo. Estou com pena tua agora. Quase com remorsos.
É mais comum do que possas pensar. Estúpido, ainda assim, é verdade. Mas pelos mais pequenos incómodos, as pessoas negam aos outros aquilo de que eles precisam e querem, limitando-se ao que não estorva, ou não lhes morde a consciência. Ao que lhes chega. São egoístas por conveniência. E esperam que isso baste para nos ter ali. Ficarmos pelas migalhas.
O pior é que és a perfeita analogia disso. E fiz-te o mesmo. Talvez fosse melhor se te tivesses ido embora, talvez eu tivesse pensado nisto mais cedo assim. Mas deixa, o meu descanso é que um dia ainda terás colo. Tal como queres.
Fico contente que tenhas coleira, que estejas bem nutrido e que, por isso, possa supor que tens um porto de abrigo. Ainda bem que há gente que não liga só ao pêlo. E que sabe reconhecer um gato por aquilo que é. A minha consciência agradece.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Essência.

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E eis que o sol regressa, numa bela manhã de inverno, iluminando o meu mundo. Ele é meu.

Não sabemos porque estamos bem, porque é que o mundo faz sentido. Mas faz. Conseguimos, e não apenas desejamos, ver o lado bom. Talvez seja felicidade. Ou simplesmente encanto. Com as pequenas coisas do dia-a-dia, da vida. Com uma simples manhã e uma música indescritível. O mundo é tão belo em certos dias.
I love you. You changed my life. I don’t ever wanna live without you.

Um dia ainda me vou sentir assim. E vou poder dizer-to ao acordares, quando a primeira coisa que sentires pela manhã for o meu beijo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Em hasta pública.

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“Next time you point a finger / I might have to bend it back / Or break it, break it off / Next time you point a finger / I’ll point you to the mirror”
from ‘Playing God’ – Paramore

É maravilhosa a quantidade de pessoas que consegue estar interessada em fuçar na merda dos outros. Hoje imaginei o que seria se todos os dias, aleatoriamente, fosse publicada em sítio bem público e com soberba visibilidade uma lista com tudo o que de mais sórdido e secreto houvesse a saber de uma pessoa. E depois falem-me de pessoas equilibradas. Os curiosos seriam decerto, creio, mais que muitos. Seria assunto para conversa durante horas a fio, e uma vez que todos os dias havia uma nova lista, haveria com certeza do que falar. Sim, porque é interesse de muita gente a vida, e especialmente as suas pequenas nuances, dos outros.
Alguém se lembraria de pensar na pessoa que havia sido exposta, lesada na sua intimidade e expurgada de todo o direito à privacidade? Até que nos fosse alguém próximo, importar-nos-íamos realmente? Não sei, tenho as minhas dúvidas. É sempre tão fixe ver até que ponto os outros conseguem ser tarados, ou simplesmente doidos. Invulgares. Ser voyeur é moda. E saber é poder. Mas não seria também engraçado ver até que ponto as pessoas se conseguiriam rir e falar do que o outro havia feito, com plena consciência de que também já o haviam feito, e talvez até pior? A ironia intemporal do animal social. Sempre a tentar integrar-se e fazer parte da massa, ou de uma parte dela, nem que para isso precise de esconder o mais possível os seus esqueletos no armário e rezar para que nunca os descubram e de lá os tirem.
Ter telhados de vidro tem destas coisas. Tira-nos a moralidade para falar de muito. Mas não nos impede de o fazer. E enquanto assim continuar a ser, o pobre que se vê sob o jugo alheio que se desenrasque, afinal quem nada deve nada teme. Mas nesta vida todos devemos. Esperamos sempre é não ter de temer.
Mas deixo-vos a pensar naquilo para que não achei resposta certa. Sabendo que todos os dias a lista lá estava, será que conseguíamos fazer com que as pessoas a ignorassem, em nome do invadido? Ou será que continuaríamos a verificá-la diariamente, nem que fosse para ter a certeza de que não éramos nós o prato do dia?
Chegariam as nossas vidas para preencher conversas? Ouso dizer que sim, se não tivéssemos de ter tanto guardado, pelos risos e juízos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mais um.

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Quando penso em mim, penso que me podes ver em tantos lados que me assusto. Tendem a banalizar-me e a fazer-me mais comum do que possas pensar. Tal como acontece com as palavras, não gosto. Gosto, sim, de mim. Só espero é que tu também. Porque, para já, é o teu sorriso a dizer-me o mesmo e o brilho com que ficas quando me olhas que me faz gostar do mundo.

Sou de uma certa maneira e sei que isso me enquadra em muitos perfis, mas não sei em qual deles mais me enquadro. A verdade é que ninguém gosta de ser estereotipado. Ser classificado e rotulado de determinada maneira por ser assim, ter aquilo ou gostar do resto. Todos somos de certa forma e temos certos traços que nos assemelham, é certo. Mas de acordo com a mente colectiva, que cria, pela sua necessidade ou compulsão de sistematização, um sistema de castas, isso por si só insere-nos em grupos característicos. O que quer que seja serve. Bons ouvintes, sempre prestáveis, as boas pessoas. Inocentes, ingénuos, fofinhos, os anjinhos. Inseguros, deprimidos, apáticos, dramáticos, idealistas, românticos, e outros. Elitistas, manientos, tudo serve para nos catalogar. Mas isso não costuma ser, por norma, agradável. Porque não somos, e talvez aqui pela excepção, uma extensão das nossas características. Sei que isto pode parecer a mais óbvia das contradições, mas gosto de pensar que, embora sinuosa e difícil de perceber, a linha entre a maneira como somos e o modo como isso nos define existe e é bem marcada.
Entende, tenho medo. Medo de que, quando me conheças, eu te pareça apenas mais um. E mesmo que lutes contra isso, passe a sê-lo. Daqueles que já viste aqui e ali e com quem simpatizaste tanto mas até já nem te lembravas. Apenas mais um.
Quero acreditar que não o sou. Não sei, talvez seja simplesmente eu a pertencer aos estúpidos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lados.

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Todos nós temos um lado mais negro, um lado mais nosso que não queremos que os outros descubram ou de que se apercebam. Achamos que nos fará sentir expostos como a fraude que por vezes somos. Estaremos vulneráveis e ver-nos-ão como fracos, nojentos ou falsos. Vai por terra o exemplo de compostura que todos vêem, ou querem ver. O lado de nós que consideramos mais primitivo, mais instintivo e irracional. O nosso lado mais sombrio. O que lhe queiram chamar. Aquele com que só nós convivemos e conhecemos verdadeiramente.
Não queremos que ninguém dê conta. Não devemos. Para nosso bem, pensamos. É a maravilha dos sentimentos contraditórios que certas histórias e pessoas nos podem causar. Há coisas de que não conseguimos simplesmente gostar ou não, aprovar ou condenar, dizer que sim ou que não, que é assim ou assado. Não é assim. E nós também não. Todos temos o nosso lado lunar. E é bom conhecê-lo, para que não nos impeça de viver e aproveitar cada momento. Eventualmente quem te conhecer conhecê-lo-á, mas aí só podes esperar que valhas mais que ele.
Todos somos normais até os nossos segredos virem ao de cima. Sei que toda a gente tem o seu, e por isso escrevo. E por isso não te posso contar. Não te posso contar porque é o que me resta. Se te contar, sabes-me todo. E ninguém deve ser sabido todo. Não sem me dares uma hipótese.

sábado, 9 de outubro de 2010

Alzheimer.

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me devia ter deixado de merdas. Já tinha dito.

Detesto quando um sentimento me escapa. Só o sinto por momentos. Sinto muito, mas sinto pouco tempo. Intermitentemente. Tenho de aproveitar para anotar. Escrever para te poder dizer. Tenho tanto para te dizer. Tanto que te quero realmente dizer às vezes, mas escapa-me.
Eu vou escrevendo e, quando conseguir explicar, mostro-te. Só merda nesta cabeça perdida. Um relativo turbilhão.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Definição. #2

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Acabou o ano. Ou melhor, começa um. Não expressei muito do que senti, porque senti muito. Mas disse o que queria dizer e escrevi-o na altura. Desabafei e contei-te. Não sei se consigo dizer como hoje estou e quem sou em poucas palavras. Talvez também não seja suposto. Às vezes ao olhar para o que já escrevi, só me parece que fui pondo cada vez mais em dúvida. Descobri muito, sim. E senti muito. Mas tenho poucas certezas. E tudo fica tão relativo em certos dias. Mas andando indo, penso que um dia ainda lá chegarei, espero. Onde quer que seja, que hoje acho que não sei tão bem. Um dia de cada vez talvez...
Todos os anos nos dão novas expectativas de renovação ou pelo menos de alguma mudança. Mudança para melhor. E poderá ser este ano. Poderá ser no próximo. Não sei. Nunca soube lidar com expectativas. Ou sempre lidei mal. Mas gozaremos este ano como pudermos. Hoje é aqui que estamos e é aqui que temos de aproveitar. Anota isso, será o nosso voto. E o ano que passou ainda teve momentos muito bons, não teve? Vamos estar aqui um para o outro de qualquer modo, sempre. Para a vida.
Não esquecerei aquilo que senti e por que passei. Não sou de definições, e cada vez menos. Mas isso define-me e espero que tenhas compreendido.
Setembro vai a meio. Podemos começar de novo? Olá, sou o Pedro Teixeira.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Glamour age.

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"I'm still fabulous."
"When I look in your eyes, do you want to know what I see? I see a poor, pathetic, frightened little boy too scared to face reality. You're fabulous."
from Party Monster

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Descontrolos.

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Numa casa que mais parecia uma fortaleza. À noite. Com trabalhadores e com vândalos como eu. Provocação e retribuição. Causa e efeito.

(...) Em algum ponto da fuga, levei com aquilo na cabeça, que da força imediatamente se partiu e me deu uma enorme dor. Seria anormal?!
Não estava a brincar. Podia ter-me morto. E ele parecia saber disso, mas ainda assim não se importar. A suposta regra havia sido transposta, mas se tivesse acontecido teria acontecido. Chocava-me ver como tinha arriscado e como uma provocação em tom de brincadeira podia ter dado mau resultado. Mas eles também já haviam chegado. E tinham visto. Ainda assim, tive de me queixar. E aí protegeram-me finalmente. Não que a ele isso tenha feito alguma diferença. Tive medo.
Atravessei-me no seu caminho e provoquei-o, a ele e aos outros, como uma criança, e ele ter-me-ia morto sem qualquer sentimento de remorso. Foi a mim que ele apanhou. Os outros já não interessavam. Eu era a personificação daquela absurda partida.
No meio de tanta coragem com que alimentei o ego temporário, senti-me a mais cobarde das criaturas. Que ferida corre para os progenitores protectores tão desesperadamente quanto pode, clamando por ajuda. E toda a coragem se esvaiu e não passou de adrenalina, alimentada por uma ilusão delirante inconsequente. Estava cheio de medo e só queria chorar. E soube que só não morri porque não houve mais tempo. Porque teria sido trucidado sem piedade. A brutalidade que aquele homem conseguiria alcançar… Tive medo. Muito medo.

[9 de Agosto de 2010]

domingo, 15 de agosto de 2010

Great expectations.

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Mais um. Não tão bom, desta vez. Mas eu conto-te.

Sei que te ia ver. Estar contigo, conhecer-te. E, de alguma maneira, apresentar-te a eles. Não sei porquê agora, mas ia. Sei que chegaste e que o fiz. Também eu estava a conhecer-te pela primeira vez. E eles falavam contigo e tu com eles de uma maneira que me deixou pouco confortável, fez-me sentir apenas outro espectador. Parecia que me evitavas. Talvez o fizesses. Mas também parecia que quem realmente precisava de ser apresentado éramos nós. Foi estranho. Eu só sabia sorrir ao som da conversa, para ver se não se via como me estava a sentir.
Sei que isso passou. Depois, em ambiente de alguma diversão num sítio improvável dali perto, onde estava mais gente, tu conhecias mais pessoas. Falavas com quase todos, menos comigo. E eu tentava perceber. Porquê? Pensei que tinhas vindo por mim. Aí já não parecias evitar-me. Simplesmente não querias. Ou não sabias como. Mas nem uma vez me olhaste. Eu seguia-te, subtilmente. E outras vezes nem tanto. Vi-te a despedires-te e mal te viraste na direcção de onde eu e os outros estávamos, olhei para o chão, pseudo-absorvido na música que ouvia pelos auriculares. Não sei porque o fiz. Agora que penso, devia ter feito diferente. Mas foi reacção. Pode ter sido parvo.
Vieste. E tal como de todos os outros, despediste-te. Nada mais. Foste embora. Pensei (ou talvez quisesse que assim fosse) ver-te olhar para o chão e quis imaginar que fosse por te sentires como eu, confuso e aturdido com o que se tinha passado. A perguntares-te porquê. O que tinha acontecido? Talvez não tivesses sabido como me abordar, como falar comigo como falaste com os outros. Talvez eu pudesse ter feito algo mais mas senti que não me deixarias, que não conseguiria passar as tuas barreiras. O que se tinha passado?
Isto era horrível, não saber. Não perceber. Estar desiludido e não saber como fazer para que fosse diferente. E, pior que tudo, pensar que talvez eu tivesse sido uma desilusão. Sabia que te ia ver. Era a primeira vez. Mas as expectativas foram os foguetes da noite.

sábado, 31 de julho de 2010

Wanted.

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uns dias sonhava com uma escola. Em tudo parecida à minha mas alterada, para variar. Respirava-se felicidade ainda assim. Havia, contudo, algumas figuras, que povoavam a escola um pouco por todo o lado, com as quais a atmosfera mudava. Altas e encorpadas, como pontas de ogivas, com um grande casaco metálico. O ambiente era tenso. Figuras com um olhar superior e frio, com o propósito de manter uma qualquer ordem estabelecida. Parecia que, ainda assim, embora todos os outros reconhecessem a autoridade de tais seres, apenas se moderavam na sua presença, tentando possivelmente lidar com a impotência que sentiam por não saberem o que fazer para se libertarem daquela influência. Não sei.
Eu, contudo, havia caído naquele cenário por acaso. E dedicava-me a explorá-lo, a absorver o que podia. Já me havia cruzado com uma ou duas destas criaturas desde que entrara na escola, mas desviava o olhar e continuava, fingindo não perceber que o seu olhar se focava em mim e me seguia, enquanto todos os outros lhes eram indiferentes. Foi apenas quando cheguei aos corredores que ladeavam o claustro interior que ao longe a vi. Ela, que no meio de todos, parecia não ter função diferente dos outros, mas que eu sabia assim não ser. Ela era diferente. Fascinava-me. E era verdadeira, não uma projecção robótica de um propósito. Notava-se-lhe pelo olhar. De desprezo, de altivez, de distracção, de sarcasmo. Foi um momento em câmara lenta, aquele desde que eu começo a bebê-la até que ela levanta o seu olhar ordeiro e autoritário e ao virar a cara me vê. Eu, segurando algo como uma chávena de café nas minhas mãos, sei que fui apanhado. Apresso o passo. Ela sorri, repleta de ironia. O mesmo sorriso desdenhoso e malicioso. Amedrontador também. Mas eu não sabia o que temer. Ela era verdadeira, eles apenas marionetas. Materializações sem vontade de um sonho. Ela era diferente, ela conhecia-me. E sabia que eu era diferente dos outros que andavam nestes corredores. Era perigoso.
Fazia por afastar essa ideia da minha cabeça, ela não havia feito sorriso nenhum, ela não viria atrás de mim. Era só uma chávena de café. E eu não era nada. Nem ninguém. Morria de ansiedade, queria sair dali. Sabia que ela viria para me matar. No mesmo passo apressado, procuro convencer-me do contrário. Estou a entrar em pânico sem motivo. Mas tenho de fugir.
Chego à curva do corredor e olho para trás. Viu-me. Vem atrás de mim. Calmamente, com aquele sorriso na cara. Não lhe escapo. É impossível, não consigo. Tenho de correr. Mas quando chego à outra esquina, estou cercado. Ao fundo, também eles já sabem que sou eu o seu alvo. Olhando à volta, só me ocorre entrar onde puder, na primeira porta, na primeira sala. Numa sala repleta de computadores. Está uma turma a ter aula. Que estupidez, nunca escaparei daqui. Tento camuflar-me e finjo que apenas fui à casa de banho e que sou outro dos outros. Sento-me no meio deles, os alunos, a uma secretária onde estavam mais. Ela entra também, quase logo. Mais depressa do que imaginava. Desta vez, estava com um olhar furioso, como se eu já tivesse escapado. Mas nunca sem perder a compostura. Não percebia. Eu estava mesmo ali, ali no meio dos alunos para quem ela olhava. Não iria certamente interromper o que quer que eles estivessem a fazer, tinha de haver ordem. Mas ela não me via. Não percebia. Eu devia ser o único que a olhava, ainda que de esguelha e tentando disfarçar. Como era possível?
Foi a seguir a isso então que os alunos da minha mesa me disseram descontraidamente para parecer indiferente, olhar para a frente e tentar abstrair-me da ansiedade. Ela não me veria. Daí a frustração! Ela saberia que ali no meio não me veria. Não no meio deles, sendo eu um deles. E o medo era esse, suponho. O clima na sala era agora outra coisa para mim. Todos eles sabiam o que ali se passava, todos eles a enganavam, todos se mascaravam para lhe escapar. Até as duas professoras, que pareciam aceder a tudo com a maior das serenidades, numa qualquer espécie de torpor e felicidade etérea. Apenas na ânsia de poder atacar quando o momento surgisse. A mais subtil das passivo-agressividades. Afinal a ordem não era natural, era imposta. E imposta à força. Por isso é que era tudo tão natural quando nenhum deles estava por perto. Porque longe deles não tinham de recear nada, de disfarçar nada. E mesmo junto deles a ordem invertia-se pouco a pouco. Eles não tinham todo o poder. Nem teriam. A oportunidade chegaria.
No meio disso, acho que escapei.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

João e o pé de feijão.

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"Às vezes sinto-me um bocado sem propósito, como se não soubesse muito bem o que ando a fazer. No entanto, não tenho qualquer razão para estar triste. É confuso, e eu não sei explicar bem."

"Sabes o que eu acho? As coisas nos pedestais ficam muito bonitas e são óptimos objectivos que devemos tentar alcançar, mas pecam por ter pouca utilidade prática. E não subestimes a importância da utilidade prática das coisas. Acho que não deves desistir da tua visão e dos teus ideais, mas ao mesmo tempo não te deves deixar prender por eles. As coisas são o que são, e não têm de ser perfeitas. E no que respeita ao amor, é fácil convencermo-nos de que temos muito a perder, quando não é bem assim."
"A minha vida é aquilo que eu vou fazer dela. Tudo aquilo que já faz parte do rumo já definido é só uma parte da coisa. O resto, aquilo que eu ainda hei-de decidir, os sítios onde ainda hei-de ir por minha escolha, aquilo que ainda é um mistério e só vai deixar de ser quando acontecer, isso é que me faz pensar que vai valer a pena."

[por Sir John]

Obrigado.

Oasis.

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O que me acontece é que nem sempre encontro as palavras certas. Ou pelo menos as que gostaria. Porque elas dizem muito. Dizem-me muito. Hesito.
És uma miragem, uma que desejo acima de tudo ver concretizada, mas ainda assim uma miragem. Boa demais para ser verdade. E por isso tenho medo. Medo do que venha a seguir, quando as incertezas são tantas. Medo de te perder quando já fazes parte do meu dia. Medo de te conhecer.

[1 de Junho de 2010]

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ouve.

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As músicas que passam são mais de mil. Não sei se pelo simples prazer de ouvir, se pelo que me contam, pelo que me pedem, pelo que me dizem ou apenas porque não me deixam sozinho, mas hoje sou delas. De cada uma. Deve ser do nariz entupido. Melhor acústica.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

De manhã.

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Saiu espontâneo. Daí não se perceber. Escrevi a falar. Por isso tu nem sempre és tu, mas antes eu e também eles. Mas eu sou eu.

Não sei porque faço isto. Não sei porque te falo. Não sei porque te escrevo. Só uma pessoa eu quereria que agora me ouvisse. Não tu. Tu não me interpelas, não me respondes, não te revês em mim, eu não fui importante para ti. Nada mais fazes senão ouvir e calar. Por isso é que eu não dava para psiquiatra.
Tenho de me deixar de monstros, de pessoas más, de alter-egos opostos a mim, de merdas. Sou só eu, sou eu sem saber. O que fazer, o que pensar, o que desejar, o que buscar. Não quero ser ouvido. Quero apenas não me sentir o único.
Hoje enchi-me de solidão. Sozinho aqui, sozinho ali, sozinho muitas vezes, sozinho às vezes sem querer e outras por necessitar. Mas faz-me falta o toque, a companhia. Mais do que em qualquer outra noite. Porque há dias de tudo. E sempre haverá. Sempre há dias de tudo. Mesmo quando tudo está bem, mesmo quando tudo parece estar bem. Até nesses dias, que não duram. Não duram o dia. E eu não os posso estar sempre a fazer aparecer, acho que não consigo. Um dia estas noites levam a melhor. Porque quando o dia se faz bom, não há noite que o abafe. Eu precisava disso quase sempre. Mas quando a noite se mostra, má e desesperante como hoje, o dia parece já tão distante e já tão mal fadado que me pergunto se lá chegarei e se valerá a pena. Se tudo isto valerá a pena.
Mas tenho é de me deixar de merdas, já tinha dito. Pintar o cabelo de vermelho, pintar a manta, ser e fazer como quiser, sem ligar a patetices, a figuras ou ao escândalo. Fazer mais, ser mais. Ao menos o tempo passava mas ria-me, aproveitava e sempre via se conseguia ser mais feliz.
Um dia, sem saber como, serei. Mais que hoje. Devia deixar de me pôr a falar e a escrever para o boneco, fingindo que alguém irá perceber o que quero dizer. Mas a verdade é que monologando parece que a noite passa mais depressa. E sozinho consigo encontrar companhia. O meu amigo aparece sem conflito, fica ali. Ou então vai dormir, que não deve gostar que eu fale contigo ou escreva para ti.
Sei que precisas de tempo. Eu dou-to, mas sinto a tua falta. Talvez tu percebas. Talvez tu já tenhas tido noites assim. Talvez. Eu adoro-te, não te esqueças. Escrevi antes desta frase, que agora apaguei, de que servia que alguém nos compreendesse? O que queria eu, com isto tudo? Uma resposta não seria, que se não a tenho, sozinho não a encontrarei. Mas na solidão com que tenho tentado conviver, a quem tenho de me habituar e não fazer drama, venho a pensar que tentamos que alguém nos compreenda para que não nos sintamos sozinhos. Pensamento básico, bem sei. Mas não dá, não é? Nem sempre dá. Mesmo sabendo que alguém pensa em nós todos os dias, isso não nos chega. E queremos mais mas não podemos. Sofremos nesse dia, apertados sem saber porquê e o que fazer. Rumo fácil de perder e pôr em causa este.
Não quero com isto parecer nenhuma vítima. Sei que só escrevo dos momentos maus. Nos momentos maus, o que os faz ainda piores. Mas estas são noites que também passam. E passam mesmo com a noite. Sim, sabe que eu vou conseguindo ter momentos felizes. Tento pensar que quero um dia passar uma longa noite ou mais a contar-te histórias e a poder rir-me de recordações felizes. Mas tenho de as ir vivendo. Não será tudo mau. Talvez a felicidade se vá encontrando assim aos pedaços. Quando chegar a velho, quero perder-me em memórias. Lembrar-me disto e do resto. Ver o rumo que tudo tomará.
Sinto-o agora. Sinto-o mas é tão estúpido dizê-lo e dar-lhe forma dessa maneira. Quer falar. Ele sou eu, eu em conflito, eu sem saber. Sem saber o que mais pensar, o que mais querer, o que mais desejar, o que buscar, o que fazer. E é nestas noites que simplesmente não sei, não sei e não consigo. Nem dizer nem explicar. Não sei o que posso fazer para que isto passe. O estômago contorce-se, aperta-se e dá um nó bem justo, um nó que me abafa e me deixa sem saber se vai passar, como, quando. Só espero que de manhã passe.
Porque, agora que li, não sei. Quanto mais tu.

sábado, 3 de abril de 2010

Icarus.

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"You say you wrong, you wrong, I'm right, I'm right, you're wrong, we fight / Ok, I'm running from the light, running from the day to night / Oh, the quiet silence defines our misery / The riot inside keeps trying to visit me..."
from 'Hurricane' - Thirty Seconds To Mars

Tanto tempo. Tanto tempo na existência torpe do dia-a-dia. Tanto tempo. Sem pensar.
Momentaneamente parei no tempo. Deixei de crescer, de me interpelar e questionar, deixei de conseguir interpretar. Mas longe soava uma voz, na solidão, ora ensurdecedora ora acusadora. Os lapsos de consciência tornavam essas horas um jogo do gato e do rato, onde me escondia dela por meio de argumentos, pretextos e justificações. Onde me entretinha com o nada que fazia. Não, não, eu era o mesmo e continuava o mesmo. Apenas me adaptava.
Mas não posso. Neste mundo, não posso. Ele, que verdadeiramente sou eu, que tome as rédeas. Ele que grita de lá de dentro, desejando sair e impor-se. Seja egoísta, frio, inatingível, mas seguro, forte e corajoso. Ser magoado faz parte da vida. Magoar também.
O que me custa é a tristeza que traz com ele. Que não posso ter. A raiva, a prepotência e a arrogância que não quero ter. Porque já nem o resto consigo sentir. Já não sinto. E custa-me. Diz-me. Diz-me, por favor, o que me fará sentir-me assim tomado, diz-me o que devo fazer, como devo sobreviver. Diz-me, por favor, diz-me. Ou abraça-me e pensa comigo. Que contigo penso. Sozinho não posso. Que a realidade cai mal e é difícil de digerir.

Fantasias.

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Fantasias. Fantasias há muitas.

Tem-me parecido que, de alguma forma, o mundo me diz que não devemos fantasiar. Ser realistas. Pois na realidade existe o verdadeiro, o real. Aquilo por que devemos lutar. Acordar e viver de facto. E não posso deixar de concordar sem haver algo que me contraria.
Se o real existe, quem me diz que o resto é irreal? A ver, a tentar, a sentir, a fugir, a amar, a matar. Sou eu, ali.
Sentes-te mal porque digo isto. Mas a verdade é que por muito que te repugne saber que vives comigo e que me odeies por isto, sou eu que te suporto, que te impeço de cair na realidade que te esmagará, por muito que queiras que seja forte. Fui eu que, fantasiando ou delirando, percorri os passos do meu destino, que também é teu por seres eu, por entre aquele pinhal. Fui eu que, sozinho, o tracei naquele dia. Fui eu que tomei as decisões que hoje nos trouxeram aqui. E, no entanto, só nesse dia me consegui sentir preenchido, no rumo de algum sentido, em alucinação ou ilusão. Só nesse dia. Porque o rumo foi-se desvanecendo e os passos desaparecendo. Nos outros tu estiveste silencioso.
Só me engano quando fantasio. Preciso que me tragas para a realidade. Fala.

[25 de Janeiro de 2010]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Formatos.

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Gostava de saber como vemos o mundo. Gostava de saber como o vêem os outros. Gostava de saber o que nos limita, o que os limita. E porquê. Gostava de não ver assim. Não apenas assim.
É nestas alturas que qualquer sentimento de superioridade de qualquer tipo, arrogância mais parece, cai por terra. Qual o direito de julgar e opinar acerca do que não vêem, do que lhes passa ao lado, daquilo que perdem, daquilo que não percebem, das diferenças tão óbvias, quando nós próprios falamos com palas? Somos vítimas da nossa própria perspectiva, tal como eles. Como pode a estranheza desaparecer no meio disto? E como pode algo mais encaixar com ela no meio? Fica o que tiver de ficar e o tempo passa. Mas claro, sem pressa.
Ouvi dizer que a vida é como um puzzle e que não devemos à força tentar desvendá-la porque só nos vai parecer cada vez mais indecifrável. Devemos deixá-la fluir para que tudo nos pareça mais fácil. Ou é de mim, ou os puzzles nunca se resolveram sozinhos nem nunca com o tempo se revelaram mais fáceis. Mas também nunca tive jeito para puzzles. Nenhum.