quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

13 passas.

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Nunca gostei de passas. Mas o olhar da minha mui supersticiosa mãe sempre mas fez engolir a custo. Minimizando os estragos, iam todas de uma vez.
Foi coisa que nunca percebi, tal tradição. Além disso, é a manifestação por excelência do egocentrismo. Se cada pessoa visse os seus 12 desejos realizados teríamos certamente que mudar o nome do planeta. E quem no seu perfeito juízo concederia 12 desejos a cada pessoa? Seriam mais desejos que vontades e, quando assim é, cai tudo em saco roto. Nem se sabe o que se pede. Ao menos, para compensar os que pedem todos os 12 desejos, se alguma vez pedi, foi um, e isto pelo meu fraco gosto por passas.
Cada vez acho mais parvo tanta pompa e circunstância para um dia destes, para celebrar a passagem por um ponto da órbita terrestre. Para nós, é agora. Para outros, depois. Nem o reveillon, que é reveillon, agrada a todos. Deve querer ser como Ele, o Deus.
Dirão que o que eu desejava no começo de cada ano era a tão virtuosa ‘world peace’. Mas ainda não estou a concorrer para Miss, e, além disso, acho que tal só se consegue com acção e não com desejos que fiquem bem. Quase parece o Senhor Papa que todos os anos, pela época natalícia, reforça os seus apelos de paz, variando apenas as zonas a que faz o dito apelo, consoante o que tiver aparecido mais nas notícias, enquanto permanece no seu quentinho leito de ouro, enlouquecendo as fans com um aceno. E ui ui, que se contentem que isto do reumático é pelo mal. Qual brincar ao moche. Cá em mim ninguém toca. O mais giro é que, no meio de tudo, não ter largado uma vara com a qual até se partem pernas de cardeais (finalmente tem propósito!) é que é a derradeira prova de fé. Digo eu que enfrentar tantos gorilas pensando que se chega ao Padre é que é ter fé. Nunca se pensou ver futebol americano na Basílica. Enfim, lá me desvio do assunto.
O que quero dizer é que este ano vou dedicar-me aos meus 12 desejos. E, em honra dos velhos costumes, esperarei sentado que se realizem. Assim começo as preces para 2010.
Que não tenha de me prostituir. Que não tenha de descer as Monumentais ao pé-coxinho. Que deixe apenas Anatomia III para Setembro. Que nenhum dos meus amigos fique tetraplégico, que, da maneira que sou, já sei que sobra para mim. E vão quatro. Que a minha mãe e a família do meu padrinho continuem a ser felizes. Que o meu irmão ultrapasse depressa as fases que vive. Seis. Que o meu avô festeje o seu nonagésimo aniversário e o seu nonagésimo primeiro natal. Que o meu padrinho se mantenha calmo e sereno e sem muitas desilusões. Oito. Que melhores ventos venham para a vida de outros. Nove. Nove. Nove… As últimas três vão então pela ‘world peace’. Fica bem e eu até sou boa pessoa. Tenho é sonhos maus. Olha e vai uma por esses também. Ai se a minha mãe visse.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O som da derrota.

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Ninguém explica os sonhos que tem.

Dia de nuvens. Nada de anormal. Da chuva agora só restava a brisa do ar e as gotas intermitentes das folhas das árvores. Mas as estradas estavam hoje ladeadas de água. E no meio de tudo isso, eu. De passagem na avenida.
Ao longe, duas entidades conhecidas. Antigos colegas de uma turma de que não me lembro de ter feito parte, de uma escola onde acho que nunca andei. Mas não é a primeira vez que sei do que falam.
Olham o carro parado na estrada, numa marcha causada pelo caos da chuva que passou. Lá dentro, o seu alvo preferido da má-língua dos tempos idos da juventude. Com ela ao lado. Ela, a sempre cobiçada, tal qual ritual tribal de canibalismo.
Nunca ousei saber se algum deles alguma vez chegou a ter por ela mais que a alarve vontade de a poder dizer sua. Não obstante, agora a olham dentro do carro. Com ele. Ele, sempre tão boa pessoa, tão pacífico e sonso, com aquela vozinha snob. Com tão altos padrões, quem o superaria também...? Enojava-os tal pessoa. Sempre assim havia sido.
Dentro do carro, não pareciam felizes. Ou talvez fosse impressão. A avenida era via de passagem rotineira e hoje a chuva não ajudava a que passasse depressa. Era disso e da espera.
'Não percebo como é que ainda estão juntos. Será ela a única que não vê?’ ‘Não sei. Mas se não vê, é porque não quer.’ Ao ouvir isto, olho para eles, esperando ver as expressões que tão bem conheço de desdém. E também vejo desilusão. Uma das que corrói com o tempo e que vai crescendo. E a petulância da adolescência desapareceu. Mesmo juntos, já não se preocupam em mostrar-se invulneráveis, donos das suas próprias vidas.
Quando de novo olho para a avenida, um acidente. Eles, dentro do carro. Olham um para o outro. Simplesmente. Calmamente. Há qualquer coisa ali. Nada mudou à volta, ninguém parece ter dado pelo carro acidentado com os ocupantes ainda lá dentro.
Olhando, ouço ‘Mas vês…? Ele vai ter sucesso, pode fazê-la feliz'.
Naquele momento apercebi-me que não desejava ouvir aquilo a ninguém, nem mesmo a eles.
E acho que voltei para trás.