
Estes são os tempos da infinitude existencialista, do reduto máximo do ser e do que significa sê-lo. É o tempo do deserto criativo e da inóspita aridez intelectual. Da preguiça física e mental, e do pensamento. Não vale a pena sonhar. O sonho está morto. A realidade vence, e a criatividade sente-se a esmorecer ao redor de tal inflexibilidade. O sonho está morto. O sonho morreu.
Era uma vez um homem que não conseguia sonhar. Talvez lhe tivessem emprestado essa ideia, ou talvez a tivesse tido. Mas não conseguia. As suas noites eram preenchidas por um sono anestésico, do qual regressava ao fim da noite com a mesma facilidade com que o havia saudado. Nada o atormentava mais do que isso. E era isso que, não tão infrequentemente, lhe tirava também o sono tão profundo de que padecia. Nada do que fizesse mudava o que quer que fosse. A realidade invadia-o. Tomava-o sem esforço. E já não sonhava. Para ele, não era menos que uma doença. Uma condição maligna que o limitava e martirizava, noite após noite após noite. O derradeiro parasita, que lentamente o corroía e o fazia sentir-se a definhar, dia após dia após dia.
Considerava-se uma pessoa medianamente criativa, pois preferia a humildade à arrogância ou à imodéstia. Mas prezava-se por ela, ainda que em termos de consideração própria, se mais um dia deixasse de ser. Era responsável por contar histórias, este homem. E sabia contá-las. Contava-as como poucos. Eram conhecidas como surpreendentes, imprevisíveis, profundas e originais. Não sabia o que achar de toda essa adjectivação, nem da restante. Mas acreditava que, se o diziam, devia ser verdade. Se não fosse, que o não dissessem. Pois, lá no fundo, não lhe interessava. Escrevia para si próprio, e só verdadeiramente para si próprio. Escrever para os outros revelar-se-ia mais tarde apenas o objectivo de toda uma eventual obra de vida.
A partilha acontecera como meio de alcançar novos entendimentos. Conseguir novas perspectivas, críticas, e reconhecimento, ainda que singelo, pela sua coragem e criatividade. O talento, ignorava-o. Mas ia-o tentando. Nada mais desejava senão tocar corações. Marcá-los para sempre, com algo que nunca pudesse ser esquecido ou apagado da memória.
Cada obra era um novo passo nesse caminho. A cada uma, cada vez mais próximo do destino. Mas não tinha ainda lá chegado. Nem avançava agora. Tinha-se imobilizado e, estagnado e inebriado pela sua própria insatisfação, até dela tentou espremer o néctar da inspiração. Mas era cada vez mais difícil, e amargo o resultado. Não dava. E não iria pedir esmola pela criatividade, esguia e evasiva, que se lhe escapava a cada tic tac do relógio. Não iria deambular por essa cidade das almas inconscientes, das mentes ignoradas, das individualidades formatadas, das vontades inexistentes. Por não conseguir contar mais histórias. Não conseguiria suportar tal. E sentir-se a perder o controlo não ajudava. Não era, com certeza, já o mesmo.
Perdera o sonho. Perdera a sua musa. Perdera a consciência inexplorada, de viagens omnipotente e de virtudes, defeitos, recantos e encantos fértil. Perdera a inspiração já? Quanto tardaria a perder tudo o resto? O olhar circunspecto e observador, tantas vezes tomado como acusador; o sorriso apenas distinguível pelo canto do lábio; o pensamento organizador; a mão escriturária. Quanto tardaria tudo isso? Quanto teria ainda deles, antes que entrasse no espasmo marásmico da demência? A criatividade era apenas a primeira. Já não sonhava.
Era este o último pensamento que se lembrava de ter tido. Ontem. Pois hoje era já de manhã, e a noite havia passado. A pensar ou a dormir – era tudo igual, de qualquer forma.
Decidiu que iria escrever, e não velar pelas suas capacidades. Escrever da vida, da memória, do acontecimento. Imortalizá-lo, e fazê-lo. Nem só de sonhos vive a criatividade. E o mal deles é confundirem-se tanto com a realidade. Perde-se facilmente a noção do que é real e do que podemos querer.
Encarava-se agora, frente-a-frente a um condenado que lhe começava a ser estranho. Restava-lhe pouco tempo. Iria escrever de coração. E falar aos outros. Do coração, do pensamento, da memória, do sonho, da esperança. E quando tivesse acabado, esperava ser lido e lembrado. Não sonhar, mas viver em sonhos. E em memórias. E em corações. A modéstia, essa, talvez tivesse ficado pelo caminho. Não era pedir assim tanto.
Se tudo aconteceu, não sonhes. Recorda.
