
Há uns dias sonhava com uma escola. Em tudo parecida à minha mas alterada, para variar. Respirava-se felicidade ainda assim. Havia, contudo, algumas figuras, que povoavam a escola um pouco por todo o lado, com as quais a atmosfera mudava. Altas e encorpadas, como pontas de ogivas, com um grande casaco metálico. O ambiente era tenso. Figuras com um olhar superior e frio, com o propósito de manter uma qualquer ordem estabelecida. Parecia que, ainda assim, embora todos os outros reconhecessem a autoridade de tais seres, apenas se moderavam na sua presença, tentando possivelmente lidar com a impotência que sentiam por não saberem o que fazer para se libertarem daquela influência. Não sei.
Eu, contudo, havia caído naquele cenário por acaso. E dedicava-me a explorá-lo, a absorver o que podia. Já me havia cruzado com uma ou duas destas criaturas desde que entrara na escola, mas desviava o olhar e continuava, fingindo não perceber que o seu olhar se focava em mim e me seguia, enquanto todos os outros lhes eram indiferentes. Foi apenas quando cheguei aos corredores que ladeavam o claustro interior que ao longe a vi. Ela, que no meio de todos, parecia não ter função diferente dos outros, mas que eu sabia assim não ser. Ela era diferente. Fascinava-me. E era verdadeira, não uma projecção robótica de um propósito. Notava-se-lhe pelo olhar. De desprezo, de altivez, de distracção, de sarcasmo. Foi um momento em câmara lenta, aquele desde que eu começo a bebê-la até que ela levanta o seu olhar ordeiro e autoritário e ao virar a cara me vê. Eu, segurando algo como uma chávena de café nas minhas mãos, sei que fui apanhado. Apresso o passo. Ela sorri, repleta de ironia. O mesmo sorriso desdenhoso e malicioso. Amedrontador também. Mas eu não sabia o que temer. Ela era verdadeira, eles apenas marionetas. Materializações sem vontade de um sonho. Ela era diferente, ela conhecia-me. E sabia que eu era diferente dos outros que andavam nestes corredores. Era perigoso.Fazia por afastar essa ideia da minha cabeça, ela não havia feito sorriso nenhum, ela não viria atrás de mim. Era só uma chávena de café. E eu não era nada. Nem ninguém. Morria de ansiedade, queria sair dali. Sabia que ela viria para me matar. No mesmo passo apressado, procuro convencer-me do contrário. Estou a entrar em pânico sem motivo. Mas tenho de fugir.
Chego à curva do corredor e olho para trás. Viu-me. Vem atrás de mim. Calmamente, com aquele sorriso na cara. Não lhe escapo. É impossível, não consigo. Tenho de correr. Mas quando chego à outra esquina, estou cercado. Ao fundo, também eles já sabem que sou eu o seu alvo. Olhando à volta, só me ocorre entrar onde puder, na primeira porta, na primeira sala. Numa sala repleta de computadores. Está uma turma a ter aula. Que estupidez, nunca escaparei daqui. Tento camuflar-me e finjo que apenas fui à casa de banho e que sou outro dos outros. Sento-me no meio deles, os alunos, a uma secretária onde estavam mais. Ela entra também, quase logo. Mais depressa do que imaginava. Desta vez, estava com um olhar furioso, como se eu já tivesse escapado. Mas nunca sem perder a compostura. Não percebia. Eu estava mesmo ali, ali no meio dos alunos para quem ela olhava. Não iria certamente interromper o que quer que eles estivessem a fazer, tinha de haver ordem. Mas ela não me via. Não percebia. Eu devia ser o único que a olhava, ainda que de esguelha e tentando disfarçar. Como era possível?
Foi a seguir a isso então que os alunos da minha mesa me disseram descontraidamente para parecer indiferente, olhar para a frente e tentar abstrair-me da ansiedade. Ela não me veria. Daí a frustração! Ela saberia que ali no meio não me veria. Não no meio deles, sendo eu um deles. E o medo era esse, suponho. O clima na sala era agora outra coisa para mim. Todos eles sabiam o que ali se passava, todos eles a enganavam, todos se mascaravam para lhe escapar. Até as duas professoras, que pareciam aceder a tudo com a maior das serenidades, numa qualquer espécie de torpor e felicidade etérea. Apenas na ânsia de poder atacar quando o momento surgisse. A mais subtil das passivo-agressividades. Afinal a ordem não era natural, era imposta. E imposta à força. Por isso é que era tudo tão natural quando nenhum deles estava por perto. Porque longe deles não tinham de recear nada, de disfarçar nada. E mesmo junto deles a ordem invertia-se pouco a pouco. Eles não tinham todo o poder. Nem teriam. A oportunidade chegaria.No meio disso, acho que escapei.