segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Descontrolos.

Photobucket

Numa casa que mais parecia uma fortaleza. À noite. Com trabalhadores e com vândalos como eu. Provocação e retribuição. Causa e efeito.

(...) Em algum ponto da fuga, levei com aquilo na cabeça, que da força imediatamente se partiu e me deu uma enorme dor. Seria anormal?!
Não estava a brincar. Podia ter-me morto. E ele parecia saber disso, mas ainda assim não se importar. A suposta regra havia sido transposta, mas se tivesse acontecido teria acontecido. Chocava-me ver como tinha arriscado e como uma provocação em tom de brincadeira podia ter dado mau resultado. Mas eles também já haviam chegado. E tinham visto. Ainda assim, tive de me queixar. E aí protegeram-me finalmente. Não que a ele isso tenha feito alguma diferença. Tive medo.
Atravessei-me no seu caminho e provoquei-o, a ele e aos outros, como uma criança, e ele ter-me-ia morto sem qualquer sentimento de remorso. Foi a mim que ele apanhou. Os outros já não interessavam. Eu era a personificação daquela absurda partida.
No meio de tanta coragem com que alimentei o ego temporário, senti-me a mais cobarde das criaturas. Que ferida corre para os progenitores protectores tão desesperadamente quanto pode, clamando por ajuda. E toda a coragem se esvaiu e não passou de adrenalina, alimentada por uma ilusão delirante inconsequente. Estava cheio de medo e só queria chorar. E soube que só não morri porque não houve mais tempo. Porque teria sido trucidado sem piedade. A brutalidade que aquele homem conseguiria alcançar… Tive medo. Muito medo.

[9 de Agosto de 2010]

domingo, 15 de agosto de 2010

Great expectations.

Photobucket

Mais um. Não tão bom, desta vez. Mas eu conto-te.

Sei que te ia ver. Estar contigo, conhecer-te. E, de alguma maneira, apresentar-te a eles. Não sei porquê agora, mas ia. Sei que chegaste e que o fiz. Também eu estava a conhecer-te pela primeira vez. E eles falavam contigo e tu com eles de uma maneira que me deixou pouco confortável, fez-me sentir apenas outro espectador. Parecia que me evitavas. Talvez o fizesses. Mas também parecia que quem realmente precisava de ser apresentado éramos nós. Foi estranho. Eu só sabia sorrir ao som da conversa, para ver se não se via como me estava a sentir.
Sei que isso passou. Depois, em ambiente de alguma diversão num sítio improvável dali perto, onde estava mais gente, tu conhecias mais pessoas. Falavas com quase todos, menos comigo. E eu tentava perceber. Porquê? Pensei que tinhas vindo por mim. Aí já não parecias evitar-me. Simplesmente não querias. Ou não sabias como. Mas nem uma vez me olhaste. Eu seguia-te, subtilmente. E outras vezes nem tanto. Vi-te a despedires-te e mal te viraste na direcção de onde eu e os outros estávamos, olhei para o chão, pseudo-absorvido na música que ouvia pelos auriculares. Não sei porque o fiz. Agora que penso, devia ter feito diferente. Mas foi reacção. Pode ter sido parvo.
Vieste. E tal como de todos os outros, despediste-te. Nada mais. Foste embora. Pensei (ou talvez quisesse que assim fosse) ver-te olhar para o chão e quis imaginar que fosse por te sentires como eu, confuso e aturdido com o que se tinha passado. A perguntares-te porquê. O que tinha acontecido? Talvez não tivesses sabido como me abordar, como falar comigo como falaste com os outros. Talvez eu pudesse ter feito algo mais mas senti que não me deixarias, que não conseguiria passar as tuas barreiras. O que se tinha passado?
Isto era horrível, não saber. Não perceber. Estar desiludido e não saber como fazer para que fosse diferente. E, pior que tudo, pensar que talvez eu tivesse sido uma desilusão. Sabia que te ia ver. Era a primeira vez. Mas as expectativas foram os foguetes da noite.

sábado, 31 de julho de 2010

Wanted.

Photobucket

uns dias sonhava com uma escola. Em tudo parecida à minha mas alterada, para variar. Respirava-se felicidade ainda assim. Havia, contudo, algumas figuras, que povoavam a escola um pouco por todo o lado, com as quais a atmosfera mudava. Altas e encorpadas, como pontas de ogivas, com um grande casaco metálico. O ambiente era tenso. Figuras com um olhar superior e frio, com o propósito de manter uma qualquer ordem estabelecida. Parecia que, ainda assim, embora todos os outros reconhecessem a autoridade de tais seres, apenas se moderavam na sua presença, tentando possivelmente lidar com a impotência que sentiam por não saberem o que fazer para se libertarem daquela influência. Não sei.
Eu, contudo, havia caído naquele cenário por acaso. E dedicava-me a explorá-lo, a absorver o que podia. Já me havia cruzado com uma ou duas destas criaturas desde que entrara na escola, mas desviava o olhar e continuava, fingindo não perceber que o seu olhar se focava em mim e me seguia, enquanto todos os outros lhes eram indiferentes. Foi apenas quando cheguei aos corredores que ladeavam o claustro interior que ao longe a vi. Ela, que no meio de todos, parecia não ter função diferente dos outros, mas que eu sabia assim não ser. Ela era diferente. Fascinava-me. E era verdadeira, não uma projecção robótica de um propósito. Notava-se-lhe pelo olhar. De desprezo, de altivez, de distracção, de sarcasmo. Foi um momento em câmara lenta, aquele desde que eu começo a bebê-la até que ela levanta o seu olhar ordeiro e autoritário e ao virar a cara me vê. Eu, segurando algo como uma chávena de café nas minhas mãos, sei que fui apanhado. Apresso o passo. Ela sorri, repleta de ironia. O mesmo sorriso desdenhoso e malicioso. Amedrontador também. Mas eu não sabia o que temer. Ela era verdadeira, eles apenas marionetas. Materializações sem vontade de um sonho. Ela era diferente, ela conhecia-me. E sabia que eu era diferente dos outros que andavam nestes corredores. Era perigoso.
Fazia por afastar essa ideia da minha cabeça, ela não havia feito sorriso nenhum, ela não viria atrás de mim. Era só uma chávena de café. E eu não era nada. Nem ninguém. Morria de ansiedade, queria sair dali. Sabia que ela viria para me matar. No mesmo passo apressado, procuro convencer-me do contrário. Estou a entrar em pânico sem motivo. Mas tenho de fugir.
Chego à curva do corredor e olho para trás. Viu-me. Vem atrás de mim. Calmamente, com aquele sorriso na cara. Não lhe escapo. É impossível, não consigo. Tenho de correr. Mas quando chego à outra esquina, estou cercado. Ao fundo, também eles já sabem que sou eu o seu alvo. Olhando à volta, só me ocorre entrar onde puder, na primeira porta, na primeira sala. Numa sala repleta de computadores. Está uma turma a ter aula. Que estupidez, nunca escaparei daqui. Tento camuflar-me e finjo que apenas fui à casa de banho e que sou outro dos outros. Sento-me no meio deles, os alunos, a uma secretária onde estavam mais. Ela entra também, quase logo. Mais depressa do que imaginava. Desta vez, estava com um olhar furioso, como se eu já tivesse escapado. Mas nunca sem perder a compostura. Não percebia. Eu estava mesmo ali, ali no meio dos alunos para quem ela olhava. Não iria certamente interromper o que quer que eles estivessem a fazer, tinha de haver ordem. Mas ela não me via. Não percebia. Eu devia ser o único que a olhava, ainda que de esguelha e tentando disfarçar. Como era possível?
Foi a seguir a isso então que os alunos da minha mesa me disseram descontraidamente para parecer indiferente, olhar para a frente e tentar abstrair-me da ansiedade. Ela não me veria. Daí a frustração! Ela saberia que ali no meio não me veria. Não no meio deles, sendo eu um deles. E o medo era esse, suponho. O clima na sala era agora outra coisa para mim. Todos eles sabiam o que ali se passava, todos eles a enganavam, todos se mascaravam para lhe escapar. Até as duas professoras, que pareciam aceder a tudo com a maior das serenidades, numa qualquer espécie de torpor e felicidade etérea. Apenas na ânsia de poder atacar quando o momento surgisse. A mais subtil das passivo-agressividades. Afinal a ordem não era natural, era imposta. E imposta à força. Por isso é que era tudo tão natural quando nenhum deles estava por perto. Porque longe deles não tinham de recear nada, de disfarçar nada. E mesmo junto deles a ordem invertia-se pouco a pouco. Eles não tinham todo o poder. Nem teriam. A oportunidade chegaria.
No meio disso, acho que escapei.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

João e o pé de feijão.

Photobucket

"Às vezes sinto-me um bocado sem propósito, como se não soubesse muito bem o que ando a fazer. No entanto, não tenho qualquer razão para estar triste. É confuso, e eu não sei explicar bem."

"Sabes o que eu acho? As coisas nos pedestais ficam muito bonitas e são óptimos objectivos que devemos tentar alcançar, mas pecam por ter pouca utilidade prática. E não subestimes a importância da utilidade prática das coisas. Acho que não deves desistir da tua visão e dos teus ideais, mas ao mesmo tempo não te deves deixar prender por eles. As coisas são o que são, e não têm de ser perfeitas. E no que respeita ao amor, é fácil convencermo-nos de que temos muito a perder, quando não é bem assim."
"A minha vida é aquilo que eu vou fazer dela. Tudo aquilo que já faz parte do rumo já definido é só uma parte da coisa. O resto, aquilo que eu ainda hei-de decidir, os sítios onde ainda hei-de ir por minha escolha, aquilo que ainda é um mistério e só vai deixar de ser quando acontecer, isso é que me faz pensar que vai valer a pena."

[por Sir John]

Obrigado.

Oasis.

Photobucket

O que me acontece é que nem sempre encontro as palavras certas. Ou pelo menos as que gostaria. Porque elas dizem muito. Dizem-me muito. Hesito.
És uma miragem, uma que desejo acima de tudo ver concretizada, mas ainda assim uma miragem. Boa demais para ser verdade. E por isso tenho medo. Medo do que venha a seguir, quando as incertezas são tantas. Medo de te perder quando já fazes parte do meu dia. Medo de te conhecer.

[1 de Junho de 2010]

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ouve.

Photobucket

As músicas que passam são mais de mil. Não sei se pelo simples prazer de ouvir, se pelo que me contam, pelo que me pedem, pelo que me dizem ou apenas porque não me deixam sozinho, mas hoje sou delas. De cada uma. Deve ser do nariz entupido. Melhor acústica.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

De manhã.

Photobucket

Saiu espontâneo. Daí não se perceber. Escrevi a falar. Por isso tu nem sempre és tu, mas antes eu e também eles. Mas eu sou eu.

Não sei porque faço isto. Não sei porque te falo. Não sei porque te escrevo. Só uma pessoa eu quereria que agora me ouvisse. Não tu. Tu não me interpelas, não me respondes, não te revês em mim, eu não fui importante para ti. Nada mais fazes senão ouvir e calar. Por isso é que eu não dava para psiquiatra.
Tenho de me deixar de monstros, de pessoas más, de alter-egos opostos a mim, de merdas. Sou só eu, sou eu sem saber. O que fazer, o que pensar, o que desejar, o que buscar. Não quero ser ouvido. Quero apenas não me sentir o único.
Hoje enchi-me de solidão. Sozinho aqui, sozinho ali, sozinho muitas vezes, sozinho às vezes sem querer e outras por necessitar. Mas faz-me falta o toque, a companhia. Mais do que em qualquer outra noite. Porque há dias de tudo. E sempre haverá. Sempre há dias de tudo. Mesmo quando tudo está bem, mesmo quando tudo parece estar bem. Até nesses dias, que não duram. Não duram o dia. E eu não os posso estar sempre a fazer aparecer, acho que não consigo. Um dia estas noites levam a melhor. Porque quando o dia se faz bom, não há noite que o abafe. Eu precisava disso quase sempre. Mas quando a noite se mostra, má e desesperante como hoje, o dia parece já tão distante e já tão mal fadado que me pergunto se lá chegarei e se valerá a pena. Se tudo isto valerá a pena.
Mas tenho é de me deixar de merdas, já tinha dito. Pintar o cabelo de vermelho, pintar a manta, ser e fazer como quiser, sem ligar a patetices, a figuras ou ao escândalo. Fazer mais, ser mais. Ao menos o tempo passava mas ria-me, aproveitava e sempre via se conseguia ser mais feliz.
Um dia, sem saber como, serei. Mais que hoje. Devia deixar de me pôr a falar e a escrever para o boneco, fingindo que alguém irá perceber o que quero dizer. Mas a verdade é que monologando parece que a noite passa mais depressa. E sozinho consigo encontrar companhia. O meu amigo aparece sem conflito, fica ali. Ou então vai dormir, que não deve gostar que eu fale contigo ou escreva para ti.
Sei que precisas de tempo. Eu dou-to, mas sinto a tua falta. Talvez tu percebas. Talvez tu já tenhas tido noites assim. Talvez. Eu adoro-te, não te esqueças. Escrevi antes desta frase, que agora apaguei, de que servia que alguém nos compreendesse? O que queria eu, com isto tudo? Uma resposta não seria, que se não a tenho, sozinho não a encontrarei. Mas na solidão com que tenho tentado conviver, a quem tenho de me habituar e não fazer drama, venho a pensar que tentamos que alguém nos compreenda para que não nos sintamos sozinhos. Pensamento básico, bem sei. Mas não dá, não é? Nem sempre dá. Mesmo sabendo que alguém pensa em nós todos os dias, isso não nos chega. E queremos mais mas não podemos. Sofremos nesse dia, apertados sem saber porquê e o que fazer. Rumo fácil de perder e pôr em causa este.
Não quero com isto parecer nenhuma vítima. Sei que só escrevo dos momentos maus. Nos momentos maus, o que os faz ainda piores. Mas estas são noites que também passam. E passam mesmo com a noite. Sim, sabe que eu vou conseguindo ter momentos felizes. Tento pensar que quero um dia passar uma longa noite ou mais a contar-te histórias e a poder rir-me de recordações felizes. Mas tenho de as ir vivendo. Não será tudo mau. Talvez a felicidade se vá encontrando assim aos pedaços. Quando chegar a velho, quero perder-me em memórias. Lembrar-me disto e do resto. Ver o rumo que tudo tomará.
Sinto-o agora. Sinto-o mas é tão estúpido dizê-lo e dar-lhe forma dessa maneira. Quer falar. Ele sou eu, eu em conflito, eu sem saber. Sem saber o que mais pensar, o que mais querer, o que mais desejar, o que buscar, o que fazer. E é nestas noites que simplesmente não sei, não sei e não consigo. Nem dizer nem explicar. Não sei o que posso fazer para que isto passe. O estômago contorce-se, aperta-se e dá um nó bem justo, um nó que me abafa e me deixa sem saber se vai passar, como, quando. Só espero que de manhã passe.
Porque, agora que li, não sei. Quanto mais tu.

sábado, 3 de abril de 2010

Icarus.

Photobucket

"You say you wrong, you wrong, I'm right, I'm right, you're wrong, we fight / Ok, I'm running from the light, running from the day to night / Oh, the quiet silence defines our misery / The riot inside keeps trying to visit me..."
from 'Hurricane' - Thirty Seconds To Mars

Tanto tempo. Tanto tempo na existência torpe do dia-a-dia. Tanto tempo. Sem pensar.
Momentaneamente parei no tempo. Deixei de crescer, de me interpelar e questionar, deixei de conseguir interpretar. Mas longe soava uma voz, na solidão, ora ensurdecedora ora acusadora. Os lapsos de consciência tornavam essas horas um jogo do gato e do rato, onde me escondia dela por meio de argumentos, pretextos e justificações. Onde me entretinha com o nada que fazia. Não, não, eu era o mesmo e continuava o mesmo. Apenas me adaptava.
Mas não posso. Neste mundo, não posso. Ele, que verdadeiramente sou eu, que tome as rédeas. Ele que grita de lá de dentro, desejando sair e impor-se. Seja egoísta, frio, inatingível, mas seguro, forte e corajoso. Ser magoado faz parte da vida. Magoar também.
O que me custa é a tristeza que traz com ele. Que não posso ter. A raiva, a prepotência e a arrogância que não quero ter. Porque já nem o resto consigo sentir. Já não sinto. E custa-me. Diz-me. Diz-me, por favor, o que me fará sentir-me assim tomado, diz-me o que devo fazer, como devo sobreviver. Diz-me, por favor, diz-me. Ou abraça-me e pensa comigo. Que contigo penso. Sozinho não posso. Que a realidade cai mal e é difícil de digerir.