segunda-feira, 28 de março de 2011

Run.

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Vai. Foge. Desaparece. Vai. Hoje és só tu. Vai. De qualquer modo, ninguém compreenderá.

anos que sonho com este dia, com esta sensação. Tenho de ir, de fugir. De me salvar, de deixar tudo para trás. Tenho de perceber o que é importante, de ir e de lutar por viver. Não há mais nada a fazer. E não há nada que tanto me assuste. Tremo de pensar em tudo. E no entanto, nada me parece dar tanto impulso, tanta força. Como consigo ver tanto fascínio em tal freneticidade? A minha mente excede-se em egocentrismo maniento. E, contudo, consegue deixar espaço e faz por me chamar à atenção para aqueles que quero, de que preciso. Por mim, para mim. Diz-me o que é importante.
A ameaça não existe de facto. Nunca existiu, embora não seja essa por vezes a deliberação da vontade.
É só aquela pontinha, aquele agitar das águas no limiar dos sentidos, que põe quase tudo em risco. Essa sensação assalta-me mais que frequentemente. E excita-me. A adrenalina consome-me numa fuga não sei de quê, nem muitas vezes como. Mas tenho de ir. Nessas alturas tenho de ir. Fugir. Desaparecer. E, no esforço, nunca me consegui sentir mais vivo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Visões.

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O teu corpo, o teu toque, os teus braços à minha volta, o teu beijo, o teu aperto, a tua garra, a tua paixão.

Não sei se vi ou quis ver. Não sei o que pensar do que sonhei, ou vivi. Não sei se o quero ou se disso tenho necessidade. Há visões que não deviam ser tidas, sonhos que não deviam ser tão vividos. Ou vidas que não deviam ser tão sonhadas. Não sei se vi. Não sei se vivi. Só que senti.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Impossível.

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uma sensação que apenas algumas vezes tive mas que me consumiu dias. Dias de angústia, de pensamento, de interrogação. Só ainda falei contigo sobre isto.
Espero que não sejamos muitos a tê-la vivido. Por um lado, espero isso. Por outro, sei que talvez por isso não compreendam e gostava de conseguir explicar aquilo que senti, embora até nisso a minha vontade hesite. É algo forte, muito forte. Tão forte. Intrinsecamente desesperante. Algo que, ainda assim, experimento com uma calma sideral. Não de quem está calmo, mas de quem não tem reacção, força ou vontade para se mexer. Posso quebrar. Algo a que eu e tu aprendemos a chamar de impossibilidade.
Não queiras saber mais. É impossível. E saber que já te sentiste tal e qual como eu chega para que o teu silêncio me conforte.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

To what matters.

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“We are mysterious creatures, aren't we? And at the end, so much of it turns out not to matter.”
from Evening

Sempre tive uma esperança estúpida de que algo mudasse. Que a minha vida mudasse, que o mundo mudasse, que algo nos pusesse à prova. A luta e o esforço dar-me-iam vida, impulso. Acho que só nesses momentos sabemos o que é verdadeiramente importante para nós.
Mas o tempo encarregou-se de me desacreditar. Parece-me agora que estava disposto a aceitar tudo até que a mudança viesse. E sem ela perdi o norte. A adaptação nunca é fácil mas faz parte do crescimento. Não sei bem para onde olhar agora, mas tenho de ver a minha vida como ela é. Deixar-me de coisas e aceitá-la, tal como ela é. Dar valor ao que existe, ao que posso ter. Quem vive na expectativa nunca vive o momento nem se apercebe do que o rodeia. E eu quero tanto isso. E tenho tanto, mas tanto para aproveitar. Com o tempo, vou assentar. A fantasia nunca ma vão tirar. Mas vou viver e não sonhar que vivo.
Dá-me experiências, dá-me sensações, dá-me sentimentos, dá-me beleza, dá-me liberdade. Dá-me força para amar. Para viver. What if we just sang and laughed together… for the rest of our lives…?

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ficção e imaginação.

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“Never recreate places from your memory. Always imagine new places!” […] “An elegant solution for keeping track of reality.”
from Inception

Por natureza, sou sonhador. Adoro dormir porque adoro sonhar. Porque adoro a surpresa do sonho. A trama que nunca se adivinha, ainda que o contexto nos possa ser familiar. Adoro a forma como a nossa mente consegue dar sentido ao que o não tem e materializar diante dos nossos sentidos o que conseguimos imaginar. Como as ambições e as expectativas tomam forma e nos tomam de assalto, dando-nos vontade de lutar, razão de viver e impulso de amar. Adoro o que consigo sentir. E, também, admito, o poder de consciência que consigo ter por vezes nessa realidade. É nela que frequentemente faço sentido. E é só nela que por vezes desejo perder-me.
Mas tudo tem sempre um outro lado. Dreams feel real while we're in them. It's only when we wake up that we realize something was actually strange. E nem sempre é bom perceber que afinal não aconteceu. Suponho que fantasiar, às vezes, só me confunde e engana. Mas não perder a noção do que é ficção e imaginação torna-se difícil, quando se tem muito a desejar.
Entretanto, vai-se sonhando. E às vezes isso também nos faz felizes. O importante é ir assentando os pés na terra de quando em quando. Ainda que custe.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O gato da consciência.

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Os gatos têm poderes. E Nosso Senhor deve saber o que faz...

O meu quarto não me diz muito. Ou melhor, é o meu refúgio. Mas está cheio de muito nada. De muitas horas vazias, de horas sem fazer nenhum. E de horas más. Horas de que não gosto de me lembrar. Mas aparentemente o nosso cérebro tem memória espacial. Deve ser por isso que o meu quarto às vezes fala só por ter quatro paredes...
De qualquer forma, não me apeteceu subir quando cheguei. Gosto da imagem que tenho debaixo do poste. E não me apetecia ouvi-lo. Gosto de pensar iluminado. Tenho saudades de quando falava horas comigo mesmo e me ria no fim por não ter dito nada que jeito tivesse. Pensava que devia ser doido. Falava a sério e sobre coisas sérias, mas acho que gostava mesmo era de me ouvir. E isso ainda hoje me dá para rir. Bons tempos...
Não subi, como dizia. O meu amigo já me cumprimentara à entrada do Bob. Não liguei muito. Tenho de ir e tu és mais um... Lá me pus à luz. Tenho de fazer um quadro daquilo.
Conversa daqui, conversa dali, ele volta, procurando novos carinhos. Que gato esperto me saíste. Sabes bem o que queres. Fascino-me com o comportamento animal, é facto. Se assim não fosse, não conseguiria ficar horas a olhar para as galinhas do meu pai. Mas os gatos ainda são outra coisa.
Tentas logo subir-me para o colo. Não pode ser, vou ficar todo cheio de pêlo. Mas eu faço-te festas… Paro para falar e sinto a tua pata. Queres mais. Faço-te a vontade de novo e tentas outra vez. Não desistes. Deves estar mesmo carente. Mas até pareces bem tratado. Estás gordinho e tens coleira. Não te percebo.
Não paras de olhar à tua volta. Mas é verdade, há muita actividade na noite, hoje. És um querido, de qualquer forma. Aqui, comigo, hoje. Distraio-me de novo e a tua pata lá está. Mas desta vez também me olhas. E só agora reparo… que és cego… Sinto-me enternecido.
Diz-me porque te julguei sem saber. Diz-me porque logo o fiz, sem te conhecer. Eu, que, aliás, agora que te olho, sou como tu. És normal e corrente e não faltam gatos com o teu pêlo, num mundo onde isso parece ser tudo quanto importa. E és cego. Quem te quererá, amigo? Soa mal mas às vezes parece que isso basta, sermos diferentes. Ainda assim, tudo quanto queres é colo. Festas e colo. Gato necessitado, é o que tu és, penso. Mas não te posso deixar, vais encher-me de pêlo e eu posso ser alérgico.
De novo me ocupo e penso agora em deixar-te. Foste um bom companheiro nesta hora. Já nos vejo em tal jornada épica, nem imaginas. Tenho pena de te deixar. Mas tenho de ir. E és só um gato, também.
depois de vir embora me dou conta de que te tratei mal. Fiz-te festas, sim. Mas não te dei colo. E tudo quanto querias era colo. Estou com pena tua agora. Quase com remorsos.
É mais comum do que possas pensar. Estúpido, ainda assim, é verdade. Mas pelos mais pequenos incómodos, as pessoas negam aos outros aquilo de que eles precisam e querem, limitando-se ao que não estorva, ou não lhes morde a consciência. Ao que lhes chega. São egoístas por conveniência. E esperam que isso baste para nos ter ali. Ficarmos pelas migalhas.
O pior é que és a perfeita analogia disso. E fiz-te o mesmo. Talvez fosse melhor se te tivesses ido embora, talvez eu tivesse pensado nisto mais cedo assim. Mas deixa, o meu descanso é que um dia ainda terás colo. Tal como queres.
Fico contente que tenhas coleira, que estejas bem nutrido e que, por isso, possa supor que tens um porto de abrigo. Ainda bem que há gente que não liga só ao pêlo. E que sabe reconhecer um gato por aquilo que é. A minha consciência agradece.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Essência.

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E eis que o sol regressa, numa bela manhã de inverno, iluminando o meu mundo. Ele é meu.

Não sabemos porque estamos bem, porque é que o mundo faz sentido. Mas faz. Conseguimos, e não apenas desejamos, ver o lado bom. Talvez seja felicidade. Ou simplesmente encanto. Com as pequenas coisas do dia-a-dia, da vida. Com uma simples manhã e uma música indescritível. O mundo é tão belo em certos dias.
I love you. You changed my life. I don’t ever wanna live without you.

Um dia ainda me vou sentir assim. E vou poder dizer-to ao acordares, quando a primeira coisa que sentires pela manhã for o meu beijo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Em hasta pública.

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“Next time you point a finger / I might have to bend it back / Or break it, break it off / Next time you point a finger / I’ll point you to the mirror”
from ‘Playing God’ – Paramore

É maravilhosa a quantidade de pessoas que consegue estar interessada em fuçar na merda dos outros. Hoje imaginei o que seria se todos os dias, aleatoriamente, fosse publicada em sítio bem público e com soberba visibilidade uma lista com tudo o que de mais sórdido e secreto houvesse a saber de uma pessoa. E depois falem-me de pessoas equilibradas. Os curiosos seriam decerto, creio, mais que muitos. Seria assunto para conversa durante horas a fio, e uma vez que todos os dias havia uma nova lista, haveria com certeza do que falar. Sim, porque é interesse de muita gente a vida, e especialmente as suas pequenas nuances, dos outros.
Alguém se lembraria de pensar na pessoa que havia sido exposta, lesada na sua intimidade e expurgada de todo o direito à privacidade? Até que nos fosse alguém próximo, importar-nos-íamos realmente? Não sei, tenho as minhas dúvidas. É sempre tão fixe ver até que ponto os outros conseguem ser tarados, ou simplesmente doidos. Invulgares. Ser voyeur é moda. E saber é poder. Mas não seria também engraçado ver até que ponto as pessoas se conseguiriam rir e falar do que o outro havia feito, com plena consciência de que também já o haviam feito, e talvez até pior? A ironia intemporal do animal social. Sempre a tentar integrar-se e fazer parte da massa, ou de uma parte dela, nem que para isso precise de esconder o mais possível os seus esqueletos no armário e rezar para que nunca os descubram e de lá os tirem.
Ter telhados de vidro tem destas coisas. Tira-nos a moralidade para falar de muito. Mas não nos impede de o fazer. E enquanto assim continuar a ser, o pobre que se vê sob o jugo alheio que se desenrasque, afinal quem nada deve nada teme. Mas nesta vida todos devemos. Esperamos sempre é não ter de temer.
Mas deixo-vos a pensar naquilo para que não achei resposta certa. Sabendo que todos os dias a lista lá estava, será que conseguíamos fazer com que as pessoas a ignorassem, em nome do invadido? Ou será que continuaríamos a verificá-la diariamente, nem que fosse para ter a certeza de que não éramos nós o prato do dia?
Chegariam as nossas vidas para preencher conversas? Ouso dizer que sim, se não tivéssemos de ter tanto guardado, pelos risos e juízos.