
"Estou mais só do que sozinha..."
from 'Leva-em P'ra Casa' - Lúcia Moniz
"Os teus olhos foram esperança / Os meus olhos, girassóis / Fomos onde a vista alcança / Da nossa janela..."
from 'Caçador de Sóis' - Ala dos Namorados
A minha avó… a minha avó Olímpia… eu amava-a… eu amo-a.
Mas por que não sou como os outros? É certo que é bom ser “enterrar os mortos, cuidar dos vivos” mas devo admitir que me custou vê-la morta.
Vê-la ali, no caixão. Não era ela. Não era ela que ali estava, jazendo. Mas talvez tenha visto assim os factos porque ainda não caíra plenamente em mim, ainda não conseguia conceber a total magnitude do que acontecia à minha volta e as consequências que isso viria a ter na minha vida, daí para a frente.
Ela havia morrido. Nunca, nunca mais a veria!... Nunca! Nunca mais a presença dela me acalmaria... Nunca, nunca mais!... Acho que isso é que é difícil de interiorizar.
Seria, ou foi, justo? Não. Com certeza que não. Nunca o é. Mas a morte dá-se. E ter consciência disso, se é que o posso dizer sem entrar em contradição, é todo o consolo que nos pode restar. É isso que alimenta o lado que nos chamará de novo à vida e à razão… É saber isso e pensar que a pessoa que parte estará sempre… não connosco, mas em nós.
E a minha avó estará sempre em mim… Especialmente na memória daquele abraço, o último. Mas um abraço que não ficou por ter sido, de facto, o derradeiro. Permanecerá por ter sido aquele que foi dado (ou proporcionado!) porque o “netinho” se tinha lembrado, certo dia, de a confrontar com o facto de que sempre que queria agarrar a avó ela nunca deixava… Assim, talvez (porque o presumo!) por uma vontade de satisfazer esse desejozinho do neto, até parece que andou a tentar recompor-se para que pudesse, ao cabo de um tempo, durante aquela tarde de passeio, finalmente agarrar-se a mim (como tanto gostava!) e abraçar-me, tendo-me conseguido transmitir naquele gesto tão terno tudo o que sei que sentia por mim… E eu só sei dizer, ligeiramente embaraçado: “Ai que coisa boa!! Por que foi isto, D. Olímpia?”, ao que só recebo um descontraído “Então não era isto que me tinhas pedido no outro dia? Olha, hoje apeteceu-me! Vá, anda lá, que eu preciso da minha bengalinha!” (como se vê, o sentido de humor, embora salte gerações, deve ser hereditário!).
E recordo-lhe tudo, pois ela era, com certeza, toda nesse abraço!… o riso comedido… a voz, para mim tão familiar e inconfundível… o gesto terno… até o esforço para me chegar aos ombros… E de tudo só me fica alegria, por ter tido oportunidade de a ter toda antes de a perder… nostalgia, por saber que foi tão bom e, ao mesmo tempo, tudo já me parecer cada vez mais distante no tempo e na memória… e uma grande vontade de chorar, não por saudade, acho… mas pela interiorização da ideia de que não haverá nada mais, mais ninguém igual a ela.
Sei que acabou mas não quero pensar nisso. Porque sei que quando o fizer me irei sentir mais só que nunca, só, apenas só… eu. Talvez a tivesse, inconscientemente, como o meu porto de abrigo, o abrigo que me protegia de toda e qualquer tempestade que pudesse vir… tal como em criança…
É assim que me sinto… estranho, perdido, “ Estrangeiro aqui como em toda a parte, / Casual na vida como na alma, / Fantasma a errar em salas de recordações […]”… talvez seja isto que quero dizer…!
Acima de tudo, apenas quero que se sinta orgulhosa de mim. Não no sentido de estar a velar por mim no Paraíso ou algo assim… Mas que, no meu íntimo, eu sinta que, sendo fiel ao que da minha avó em mim permanece, ela estaria orgulhosa do “netinho”. Para mim, essa é, sem margem para dúvida, a maior das espiritualidades.
Morta está, mas viva continuará. Em mim, ao menos que seja…
Não consigo evitar o choro ao lembrar e ao escrever tudo isto. Não pensei que tal ainda me fosse acontecer. Afinal, só agora, depois de todo este tempo, realmente me apercebo do quanto necessitava dela…
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