
As pessoas têm problemas. Sempre tiveram. E nós devemos fazer por as ajudar. Sem olhar de lado. Nem para o lado. Sem saber. Sem ouvir. Devemos. Devíamos.
Hoje fui um dia chocante. Sobretudo para comigo
próprio. Quase me comovi, o que é muito pouco profissional. Queremos médicos
humanos e humanistas, mas não nos devemos envolver. Hei-de lhe ganhar o jeito. Não
pode ser assim todos os dias senão vou acabar aos retalhos.
Falei com um rapaz com um certo grau de deficiência
física hoje. Quase intimamente, ou tanto quanto psiquiatricamente se pode
definir intimidade. Pareceu suficientemente íntimo. O quanto baste.
É inevitável reparar, a isso somos ensinados. Enquanto
estudantes de Medicina e enquanto pessoas desta sociedade. O modo como mexe as
mãos, como articula algumas palavras imperfeitamente, como tem gestos
repetitivos. E depois, o modo como fala da irmã, da família, da namorada, do
amor, de psicopatologia. A simpatia. A honestidade. A quase comoção. A
inocência, a candura. A recatada vergonha. Foi desarmante. Em muito pouco a
vida havia sido justa para com ele. Mas esse pouco era-lhe muito querido.
Agarrava-se a ele o mais que podia depois de ter fraquejado, por pouco não de
vez. E o empenho era grande.
Descobrimos a sua paixão pela psicologia, pelas mentes
dos outros, pelo modo como pensam os Homens e pelos problemas que os vão
atormentando nas suas descobertas. Como se sentia amado pela irmã e pelos
sobrinhos; motivado para experimentar aquilo que queria e em que era bom;
julgado por aquilo de que não tinha culpa e pelo qual não sabia o que tinha
feito; magoado pelo egoísmo da namorada, invisual. Acho que me apaixonei. Por
instantes, só quis poder dar-lhe o que merecia, tudo o que merecia. Um corpo
que não o fizesse sentir-se ostracizado, um amor altruísta e igual, ainda mais
força. Talvez esteja eu próprio a ser egoísta e julgador com isto. Talvez ele
não precise dessas coisas. Mas Deus dá demasiadas nozes a quem não tem dentes
neste mundo. E tantas vezes tão mal.
Dei-lhe um olhar da pessoa maravilhosa que era. Nunca
te vás abaixo. Esse potencial é enorme. E quem te julga devia conhecer-te.
Nunca mais quero ter os pensamentos desleixados que tive quando te vi.
Ainda não recomposto, ouvi a vida seguinte. Internado
por choro incessante e tristeza severa. Pode ser o pão nosso de cada dia num
local como este. Mas aquela experiência não cabe num rótulo diagnóstico. Nenhuma cabe.
Tímido. Gay, HIV+. Nada gay, nada HIV+. Todo homem.
Culpado de transmitir sem saber o vírus ao companheiro, da minha idade. E
torturado pelo seu choro nocturno, na sua sentença mútua. A união perdura, o
sentimento fortalece-se de instinto protector. Mas talvez a ferida seja funda
demais. E ninguém pode dizer o contrário. Os nossos laços colocam-nos desafios
inimagináveis por vezes.
O que fazer? Assistir, ajudar. A lidar. Devia ser uma
das grandes questões da Humanidade – como lidar com as coisas?. A mim já me
roubou bem mais horas do que qualquer outra.
Não falo de santos. Não os louvo aqui. Falo de realidade.
De pessoas. Com virtudes, qualidades, talentos, defeitos, falhas, imperfeições,
e fraquezas. Não devemos julgar o livro pela capa. Porque o sujeito nunca
existe sem predicado. Não devemos falar sem saber. Devemos, sim, aprender.
Aprender a ajudar. Aprender a dar força. E ensinar. A encontrar equilíbrios. A
comunicar. A fazer por mais. (sabes como dizem – em casa de ferreiro, espeto de
pau)
Não sei se algum dia vou aguentar ser psiquiatra.
Médico. Ou saber sê-lo. Mas ambos agradeceram. E eu pensei ‘por quase nada’.
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