sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sem sentido.

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Fui estudar. Apanágio dos tempos recentes. Era na sua casa que o ia fazer. Que o íamos fazer. Levava-os comigo pela companhia e porque se estudava bem, em sua casa.
Era um sítio estranhíssimo. E não me lembrava nada dele assim. Um grande armazém pré-fabricado, genérico e impessoal e mesas de igual estilo com uma quantidade enorme de objectos junto às paredes. Objectos de museu, muito à British.
Estava relativamente cheio até. E a minha cabeça questionava-se e respondia-se sozinha naquele etéreo esforço masturbatório. Porque é que está aqui tanta gente?
Confessei-me imediatamente maravilhado com as peças que ali existiam. Não era eu que já conhecia o sítio? Eles arranjam uma mesa para estudarmos mas eu continuo a olhar à volta. Perguntam se não vou sentar-me, incapazes de compreender a minha admiração. Digo que já vou e ignoro os ‘pff’ risonhos, julgadores da minha distracção. Deixa-me ver o que há para aqui.
Madeira. Passo por antigas bestas, lanças, por aves raras paradas ameaçadoramente no tempo, adornos de outros tempos, por vénus africanas e até por uma floresta de pilares de ponta espiralada, ora finos ora nem tanto. Junto à parede. Tudo junto às paredes. E janelas pequeninas. Era uma colecção extremamente invulgar. Aos meus olhos, era. Não tinha ideia por que estaria aquilo ali. E porque quereria eu ter ido estudar para ali? O sítio era-me desconfortável e aquela exposição era desadequada. Havia ali qualquer coisa. Qualquer coisa de importante. Um qualquer segredo. Não. Era só uma colecção. Cala-te, cérebro.
Não sei, mas depois apareceu você. Chamou-me e assustou-me, mas soube logo quem era. Era você, só podia ser você. Claro, eu pensei nisso.
E naquele sítio, só em mim reparou. Era sua, claro. Nem tudo fazia sentido, mas haveria tempo.
prémio era esse. Descobri-lo a si, ali. Naquela colecção. Frederico sorrindo.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Estigmas.

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As pessoas têm problemas. Sempre tiveram. E nós devemos fazer por as ajudar. Sem olhar de lado. Nem para o lado. Sem saber. Sem ouvir. Devemos. Devíamos.

Hoje fui um dia chocante. Sobretudo para comigo próprio. Quase me comovi, o que é muito pouco profissional. Queremos médicos humanos e humanistas, mas não nos devemos envolver. Hei-de lhe ganhar o jeito. Não pode ser assim todos os dias senão vou acabar aos retalhos.
Falei com um rapaz com um certo grau de deficiência física hoje. Quase intimamente, ou tanto quanto psiquiatricamente se pode definir intimidade. Pareceu suficientemente íntimo. O quanto baste.
É inevitável reparar, a isso somos ensinados. Enquanto estudantes de Medicina e enquanto pessoas desta sociedade. O modo como mexe as mãos, como articula algumas palavras imperfeitamente, como tem gestos repetitivos. E depois, o modo como fala da irmã, da família, da namorada, do amor, de psicopatologia. A simpatia. A honestidade. A quase comoção. A inocência, a candura. A recatada vergonha. Foi desarmante. Em muito pouco a vida havia sido justa para com ele. Mas esse pouco era-lhe muito querido. Agarrava-se a ele o mais que podia depois de ter fraquejado, por pouco não de vez. E o empenho era grande.
Descobrimos a sua paixão pela psicologia, pelas mentes dos outros, pelo modo como pensam os Homens e pelos problemas que os vão atormentando nas suas descobertas. Como se sentia amado pela irmã e pelos sobrinhos; motivado para experimentar aquilo que queria e em que era bom; julgado por aquilo de que não tinha culpa e pelo qual não sabia o que tinha feito; magoado pelo egoísmo da namorada, invisual. Acho que me apaixonei. Por instantes, só quis poder dar-lhe o que merecia, tudo o que merecia. Um corpo que não o fizesse sentir-se ostracizado, um amor altruísta e igual, ainda mais força. Talvez esteja eu próprio a ser egoísta e julgador com isto. Talvez ele não precise dessas coisas. Mas Deus dá demasiadas nozes a quem não tem dentes neste mundo. E tantas vezes tão mal.
Dei-lhe um olhar da pessoa maravilhosa que era. Nunca te vás abaixo. Esse potencial é enorme. E quem te julga devia conhecer-te. Nunca mais quero ter os pensamentos desleixados que tive quando te vi.
Ainda não recomposto, ouvi a vida seguinte. Internado por choro incessante e tristeza severa. Pode ser o pão nosso de cada dia num local como este. Mas aquela experiência não cabe num rótulo diagnóstico. Nenhuma cabe.
Tímido. Gay, HIV+. Nada gay, nada HIV+. Todo homem. Culpado de transmitir sem saber o vírus ao companheiro, da minha idade. E torturado pelo seu choro nocturno, na sua sentença mútua. A união perdura, o sentimento fortalece-se de instinto protector. Mas talvez a ferida seja funda demais. E ninguém pode dizer o contrário. Os nossos laços colocam-nos desafios inimagináveis por vezes.
O que fazer? Assistir, ajudar. A lidar. Devia ser uma das grandes questões da Humanidade – como lidar com as coisas?. A mim já me roubou bem mais horas do que qualquer outra.
Não falo de santos. Não os louvo aqui. Falo de realidade. De pessoas. Com virtudes, qualidades, talentos, defeitos, falhas, imperfeições, e fraquezas. Não devemos julgar o livro pela capa. Porque o sujeito nunca existe sem predicado. Não devemos falar sem saber. Devemos, sim, aprender. Aprender a ajudar. Aprender a dar força. E ensinar. A encontrar equilíbrios. A comunicar. A fazer por mais. (sabes como dizem – em casa de ferreiro, espeto de pau)
Não sei se algum dia vou aguentar ser psiquiatra. Médico. Ou saber sê-lo. Mas ambos agradeceram. E eu pensei ‘por quase nada’.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Orgulho e inconstância.

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Choose your last words, this is the last time”
from ‘Born To Die’ – Lana Del Rey

Conta-me quem és. Porque estou contigo e sinto-te. Começo a ver-te por quem és e gosto. Mas tu não me dizes. Tu nunca me dizes. Não penses que não há o que dizer. Tu és tão, tu és tanto. Conta-me.
Vivo fascinado por personagens que não se mostram, personagens que se expõem quando não o fazem. Ou que não sabem como o fazer de outra forma, e por isso nos enganam a todos. Mas tu… Tu, eu não sei dizer.
O que podia eu pedir senão que me visses? Sem saber e sem querer, foste fazendo o que era preciso. Não esperaste mais de mim senão eu. Como era, como sou. Olhaste para mim e fizeste-me sentir que merecia mais. E isso fez-me não pensar nisso. O que é dizer muito.
Estiveste bem. Eu faço-te sentir bem. Como chamas a isso? Não queres dar nomes, eu sei. Tens medo. É normal. Ou só não queres, pronto. Afinal, isto é especial. E tu queres mantê-lo assim por tanto quanto conseguires. Agora que o longo tempo chegou ao fim, e é altura de sentir e viver, e não apenas desejar.
Continuo a recear esse teu lado superior, inalcançável. Indiferente. Talvez me arrisque a conhecê-lo no futuro. E talvez deva pedir desculpa. Desculpa. Nunca fiz nada por mal, e é isso que me dói, agora que te magoo. Não o merecias e acredito que não se saiba reagir.
Mas tu, ainda assim, lutas por mim. Tu tentas, tu voltas atrás. O que é isso? Tu queres. Tu queres-me. Não me podes deixar ir. E não sabes o que fazer enquanto me sentes a escorregar-te por entre os dedos. Mas eu também não. E acredita que custa. Diz-me. Diz-me, ainda que aches que não vale a pena. Eu sei que o sentes.
Dizer o que sentes nunca te vai magoar. E eu sei. Que me amas. Que me amaste. Tanto quanto pudeste e soubeste.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Socializações.

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“…I didn't think I'd catch fire when I held my hand to the flame
from ‘Talons’ – Bloc Party

Pensar em estar à vontade é bonito. Ideal, sem poder ser mais literal. Mas estar à vontade é estranho. Ser socialmente próprio e si próprio é, aliás, um conceito exclusivo do animal social humano que, como tantos outros, não deixa antever grande força motriz além do desejo de aceitação social em conformidade com as exigências da consciência e do carácter, o que implica desde logo uma estranheza inerente e intrínseca. Muito característica de tudo o que conhecemos e que sabemos ser como é já desde antes de termos consciência disso. Torna-se curioso também. O que é dizer muito e dá já um tom demasiado sério à conversa.
Mas é verdade. É estranho. Habituei-me demasiado à palavra e isso começa a irritar-me, mas nenhuma outra agora me ocorre que o descreva de tão fiel forma. Olhar à volta e pensar que aquele pode saber, que aquele provavelmente sabe, ou que aquele pode comentar, e que provavelmente o fará. O estigma de uma identidade simplificada e reduzida a uma palavra consegue ser por vezes mais asfixiante que libertador.
Dei comigo a questionar-me sobre o valor disso. O que de facto é justo dar por uma igualdade que, pelo menos por um período ainda ignorado no tempo, não vai existir completamente? Não faço a pergunta realmente. Acho que, mesmo tal como é, essa liberdade vale muito, se não mesmo quase tudo. Mas lutar por um meio-estigma, ou por uma estereotipização velada, soa a enganoso. Sei que me engano a pensar sozinho e em círculo. Fazer de advogado do Diabo comigo mesmo enquanto dactilografo simultaneamente pode enlouquecer-me a mim e ao leitor mais desprevenido.
A conclusão a que chego, que disso nada tem, é a de que mundo não é perfeito nem justo. E as pessoas também não. Vão falar, vão olhar, vão comentar. Mas talvez depois esqueçam. E se, pela primeira vez, me julgarem por aquilo que sou, talvez depois as consiga prender com quem sou. De resto, há que lidar com o desconforto. E pensar que nem só uma das partes perde. Porque às vezes penso no quanto em certas alturas me é difícil aceitar o potencial humano que posso ter de repudiar do meu percurso existencial, mas esqueço-me de que os outros podem sentir o mesmo em relação a mim. Custa-me chegar às mesmas respostas a que já cheguei e elas ainda condicionarem a existência das perguntas. Queria ser mais corajoso, queria ser seguro o suficiente para não precisar de ser levado de arrasto, ainda que não contrariado, para as coisas. Para conseguir dar primeiros passos. Para não perder esse potencial que pode estar a passar-me ao lado, e com o qual sofro por não saber o que fazer quando não o faz.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Let go.

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You have the shield / I’ll take the sword”
from ‘The Shield And The Sword’ – Clare Maguire

Fala comigo. Fala comigo, quero saber de ti. Quero saber o que se passa na tua cabeça, o que andas a sentir. Fala comigo, sinto a tua falta. De ti na minha vida, nos meus dias, no meu sorriso. Sinto tanto a tua falta. E vou continuar a sentir.

O lado guerreiro das relações começa quando se perde a arte da adivinhação. A ligação síncrona. Com o outro lado, e daí com o nosso. Deixamos de conseguir prever reacções, pensamentos, palavras. Já não acabamos as frases um do outro agora. Penamos quase até para que elas encontrem o fim, e com sorte algum sentido. Porque é que já não falamos? Como ficou tudo assim?
É normal, ao que ouço. E ao que parece. Tudo tem o seu tempo. E o amor só é eterno enquanto dura.
Gostava que tudo ficasse bem, mas nenhum de nós parece saber como o fazer. Ou quer. Ninguém sabe o que quer. Ninguém quer cortar com nada. Mas ninguém está bem como está. Nenhum de nós quer dizer que nos vamos afastar. Ou aceitar isso. Ou melhor, aceitar não é o problema. A escolha não é muita. E mesmo que fosse, por vezes a vontade hesita. E vontades não se forçam. Não é o tempo.
Mas nenhum de nós vai verbalizar isso, pois não? Sem sorte, nunca mais nos vemos. E agora que isso parece real, queremos que tudo esteja tão bem quanto pode estar. Queremos ir fugindo sem que se note. Aplacando as situações, as sensações. Fazendo o desmame. Para que seja mais fácil. Para que não custe. Para não magoar.
Custa na mesma. E também magoa. Estamos bem, mas não estamos bem. Fica a ligação. Mais vale parar agora.
Se um dia conseguirmos ter sorte e nos encontrarmos, eu vou sorrir-te na mesma e ficar feliz por te ver. E vou querer falar contigo.

[Julho de 2012]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Querido Divã.

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Desculpa. Negligenciei-te. Mas voltei. Já aqui estou. E nunca deixei de te visitar...

Não tenho falado contigo e isso entristece-me. Quero dizer-te que tenho tido muito em que pensar. Mas nem sempre foi verdade. Houve várias razões. Deixa-me tentar dizer. E remediar.
Falando verdade, pensei por vezes não saber o que te contar. Acho que sabes muito de mim e que me estarei a repetir. Mas ouvi que no decorrer dos dias os acontecimentos não se repetem. E como animais propensos à mecânica que somos, podemos tentar ajustar a nossa resposta em função da experiência. Em esforço de compreensão e adaptação. Mas nunca conseguiremos prever o resultado. Só assim podemos aprender. Ou esperar fazê-lo. Por isso, mesmo que antecipe ou tema repetir-me, tentarei falar contigo. Prometo.
Noutras alturas ainda, não soube bem o que pensar para to poder dizer. Não tem sido acontecimento raro. E, de certa forma, isso é novo. Se algum dia comunicaste com o Senhor, sabe que ele te ouviu. Deu-me novos sentimentos, novas experiências, beleza e liberdade encarnadas, e soube pôr a minha força à prova. Não sei, nem sei se quero, ou se será útil, avaliar mais alguma coisa no meio disso. Sobrevivi apenas. Mas, tirando essa última parte, tu já sabias. Apenas me tento explicar. Tu sabes.
Também te julguei muito em todo este tempo. E, no fim, acho que te subestimei. Não quis que eles soubessem muito por ti, e por isso penalizei-te. Mas és importante, e fazes-me bem. Acho que isso é o suficiente para se poder ter saudades. E tenciono acabar com elas.
Por último, e a juntar a isso, também tive preguiça. Sim, preguiça. Muita. Quase sempre. Preguiça de te falar, preguiça de quase tudo. A preguiça faz parte da minha vida e de mim, e sei o quanto isso é terrível de se ler. Mas é verdade. Na realidade, sou da opinião de que todos os nossos defeitos são terríveis. O que deriva deles é que faz as pessoas avaliá-los mal porque, em boa verdade, são todos terríveis. E a palavra é só essa. Mas a sua existência é inevitável. O bom e o mau. Só as duas metades fazem um. Sabes como dizem, ‘Gosto de ti pelas tuas qualidades. Amo-te pelos teus defeitos.’. E por isso resta-nos lidar e lutar com eles. Nossos e deles. Talvez hoje pense melhor, mas não vou maçar-te agora.
Ainda assim, pretendo falar-te mais deles. Sei que me propus a muito contigo. E acabei por falar de muita coisa. Mas acho que podes exigir ainda mais. Podes querer ouvir falar do pior que há em mim. E estou nessa disposição. Não somos só rosas, sorrisos e piadas. Tenho complexos, manias, preconceitos, desejos, crenças e pensamentos bem escondidos. E defeitos. Vais ajudar-me a expiá-los. E a vencê-los. Comecemos pela preguiça, e já não vamos com pouco.
Deixo o perdão ao teu critério. Mas tenciono voltar. Mesmo que não queiras, vais ter-me.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

I. Diário de um condenado.

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Estes são os tempos da infinitude existencialista, do reduto máximo do ser e do que significa sê-lo. É o tempo do deserto criativo e da inóspita aridez intelectual. Da preguiça física e mental, e do pensamento. Não vale a pena sonhar. O sonho está morto. A realidade vence, e a criatividade sente-se a esmorecer ao redor de tal inflexibilidade. O sonho está morto. O sonho morreu.

Era uma vez um homem que não conseguia sonhar. Talvez lhe tivessem emprestado essa ideia, ou talvez a tivesse tido. Mas não conseguia. As suas noites eram preenchidas por um sono anestésico, do qual regressava ao fim da noite com a mesma facilidade com que o havia saudado. Nada o atormentava mais do que isso. E era isso que, não tão infrequentemente, lhe tirava também o sono tão profundo de que padecia. Nada do que fizesse mudava o que quer que fosse. A realidade invadia-o. Tomava-o sem esforço. E já não sonhava. Para ele, não era menos que uma doença. Uma condição maligna que o limitava e martirizava, noite após noite após noite. O derradeiro parasita, que lentamente o corroía e o fazia sentir-se a definhar, dia após dia após dia.
Considerava-se uma pessoa medianamente criativa, pois preferia a humildade à arrogância ou à imodéstia. Mas prezava-se por ela, ainda que em termos de consideração própria, se mais um dia deixasse de ser. Era responsável por contar histórias, este homem. E sabia contá-las. Contava-as como poucos. Eram conhecidas como surpreendentes, imprevisíveis, profundas e originais. Não sabia o que achar de toda essa adjectivação, nem da restante. Mas acreditava que, se o diziam, devia ser verdade. Se não fosse, que o não dissessem. Pois, lá no fundo, não lhe interessava. Escrevia para si próprio, e só verdadeiramente para si próprio. Escrever para os outros revelar-se-ia mais tarde apenas o objectivo de toda uma eventual obra de vida.
A partilha acontecera como meio de alcançar novos entendimentos. Conseguir novas perspectivas, críticas, e reconhecimento, ainda que singelo, pela sua coragem e criatividade. O talento, ignorava-o. Mas ia-o tentando. Nada mais desejava senão tocar corações. Marcá-los para sempre, com algo que nunca pudesse ser esquecido ou apagado da memória.
Cada obra era um novo passo nesse caminho. A cada uma, cada vez mais próximo do destino. Mas não tinha ainda lá chegado. Nem avançava agora. Tinha-se imobilizado e, estagnado e inebriado pela sua própria insatisfação, até dela tentou espremer o néctar da inspiração. Mas era cada vez mais difícil, e amargo o resultado. Não dava. E não iria pedir esmola pela criatividade, esguia e evasiva, que se lhe escapava a cada tic tac do relógio. Não iria deambular por essa cidade das almas inconscientes, das mentes ignoradas, das individualidades formatadas, das vontades inexistentes. Por não conseguir contar mais histórias. Não conseguiria suportar tal. E sentir-se a perder o controlo não ajudava. Não era, com certeza, já o mesmo.
Perdera o sonho. Perdera a sua musa. Perdera a consciência inexplorada, de viagens omnipotente e de virtudes, defeitos, recantos e encantos fértil. Perdera a inspiração já? Quanto tardaria a perder tudo o resto? O olhar circunspecto e observador, tantas vezes tomado como acusador; o sorriso apenas distinguível pelo canto do lábio; o pensamento organizador; a mão escriturária. Quanto tardaria tudo isso? Quanto teria ainda deles, antes que entrasse no espasmo marásmico da demência? A criatividade era apenas a primeira. Já não sonhava.
Era este o último pensamento que se lembrava de ter tido. Ontem. Pois hoje era já de manhã, e a noite havia passado. A pensar ou a dormir – era tudo igual, de qualquer forma.
Decidiu que iria escrever, e não velar pelas suas capacidades. Escrever da vida, da memória, do acontecimento. Imortalizá-lo, e fazê-lo. Nem só de sonhos vive a criatividade. E o mal deles é confundirem-se tanto com a realidade. Perde-se facilmente a noção do que é real e do que podemos querer.
Encarava-se agora, frente-a-frente a um condenado que lhe começava a ser estranho. Restava-lhe pouco tempo. Iria escrever de coração. E falar aos outros. Do coração, do pensamento, da memória, do sonho, da esperança. E quando tivesse acabado, esperava ser lido e lembrado. Não sonhar, mas viver em sonhos. E em memórias. E em corações. A modéstia, essa, talvez tivesse ficado pelo caminho. Não era pedir assim tanto.

Se tudo aconteceu, não sonhes. Recorda.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Visões e realizações.

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Às vezes escrevo só por escrever. Sem razão. É assim na maioria das vezes. Mesmo inspirado. Vou escrevendo. Tenho mil e um motivos para escrever, mas não escrevo sobre eles. Guardo-os para quando um dia quiser escrever sobre eles. Mas nunca tenho chegado a querer. Escrevo sobre o momento. Arrebatado, ou inspirado. Mas já não acontece como acontecia. Já não me sinto assim. Sinto-me limitado. Não consigo. E não me esforço. Estou a desistir disto. De escrever. Sinto-me supérfluo a falar de sonhos, de sensações, de momentos, de mim. E não consigo como imaginava. Não importa… Quero continuar, mas é difícil. Desculpa.
Dou comigo agora frequentemente a revisitar o último ano. Há um ano, nunca me imaginaria aqui. Assim. Tanto que imaginei, tanto que imagino. Tanto que vivi e tanto que vou viver. Eu sei. Só que hoje custa-me mais. As palavras não saem, as lágrimas não correm. Não sei se é de mim ou se é normal. Tudo o que quero é chorar, seria melhor. Far-me-ia bem. Sentir-me-ia melhor. E quero. Mas não consigo. Nem escrever consigo.
Tudo o que vi, tudo o que senti. Tudo aconteceu, e mais. Mas nada é como imaginei. Nem melhor nem pior, apenas diferente. E nós somos criaturas que lidam como podem com isso, acho eu. Ou quero achar. Porque não sei explicar. Não sei o que acho. Sinto todo um ano a cair-me em cima. Toda a dimensão dos meus actos, e das consequências. Tudo o que agora se perde, mas também o que se ganhou. Quero chorar. E nem sei de quê, o que normalmente é sinal de conflitualidade. Quero desabafar, explicar, mostrar-te. Mas não consigo. Acho que é mesmo de mim. Há dias em que detesto ser como sou. Assim. E tão ligado a sonhos, e a sensações, e a momentos. A pequenas coisas. Visões. E realizações. Quero chorar. Sinto-me vazio. Nem escrever consigo.
Vou precisar tanto de ti.