quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Formatos.

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Gostava de saber como vemos o mundo. Gostava de saber como o vêem os outros. Gostava de saber o que nos limita, o que os limita. E porquê. Gostava de não ver assim. Não apenas assim.
É nestas alturas que qualquer sentimento de superioridade de qualquer tipo, arrogância mais parece, cai por terra. Qual o direito de julgar e opinar acerca do que não vêem, do que lhes passa ao lado, daquilo que perdem, daquilo que não percebem, das diferenças tão óbvias, quando nós próprios falamos com palas? Somos vítimas da nossa própria perspectiva, tal como eles. Como pode a estranheza desaparecer no meio disto? E como pode algo mais encaixar com ela no meio? Fica o que tiver de ficar e o tempo passa. Mas claro, sem pressa.
Ouvi dizer que a vida é como um puzzle e que não devemos à força tentar desvendá-la porque só nos vai parecer cada vez mais indecifrável. Devemos deixá-la fluir para que tudo nos pareça mais fácil. Ou é de mim, ou os puzzles nunca se resolveram sozinhos nem nunca com o tempo se revelaram mais fáceis. Mas também nunca tive jeito para puzzles. Nenhum.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

13 passas.

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Nunca gostei de passas. Mas o olhar da minha mui supersticiosa mãe sempre mas fez engolir a custo. Minimizando os estragos, iam todas de uma vez.
Foi coisa que nunca percebi, tal tradição. Além disso, é a manifestação por excelência do egocentrismo. Se cada pessoa visse os seus 12 desejos realizados teríamos certamente que mudar o nome do planeta. E quem no seu perfeito juízo concederia 12 desejos a cada pessoa? Seriam mais desejos que vontades e, quando assim é, cai tudo em saco roto. Nem se sabe o que se pede. Ao menos, para compensar os que pedem todos os 12 desejos, se alguma vez pedi, foi um, e isto pelo meu fraco gosto por passas.
Cada vez acho mais parvo tanta pompa e circunstância para um dia destes, para celebrar a passagem por um ponto da órbita terrestre. Para nós, é agora. Para outros, depois. Nem o reveillon, que é reveillon, agrada a todos. Deve querer ser como Ele, o Deus.
Dirão que o que eu desejava no começo de cada ano era a tão virtuosa ‘world peace’. Mas ainda não estou a concorrer para Miss, e, além disso, acho que tal só se consegue com acção e não com desejos que fiquem bem. Quase parece o Senhor Papa que todos os anos, pela época natalícia, reforça os seus apelos de paz, variando apenas as zonas a que faz o dito apelo, consoante o que tiver aparecido mais nas notícias, enquanto permanece no seu quentinho leito de ouro, enlouquecendo as fans com um aceno. E ui ui, que se contentem que isto do reumático é pelo mal. Qual brincar ao moche. Cá em mim ninguém toca. O mais giro é que, no meio de tudo, não ter largado uma vara com a qual até se partem pernas de cardeais (finalmente tem propósito!) é que é a derradeira prova de fé. Digo eu que enfrentar tantos gorilas pensando que se chega ao Padre é que é ter fé. Nunca se pensou ver futebol americano na Basílica. Enfim, lá me desvio do assunto.
O que quero dizer é que este ano vou dedicar-me aos meus 12 desejos. E, em honra dos velhos costumes, esperarei sentado que se realizem. Assim começo as preces para 2010.
Que não tenha de me prostituir. Que não tenha de descer as Monumentais ao pé-coxinho. Que deixe apenas Anatomia III para Setembro. Que nenhum dos meus amigos fique tetraplégico, que, da maneira que sou, já sei que sobra para mim. E vão quatro. Que a minha mãe e a família do meu padrinho continuem a ser felizes. Que o meu irmão ultrapasse depressa as fases que vive. Seis. Que o meu avô festeje o seu nonagésimo aniversário e o seu nonagésimo primeiro natal. Que o meu padrinho se mantenha calmo e sereno e sem muitas desilusões. Oito. Que melhores ventos venham para a vida de outros. Nove. Nove. Nove… As últimas três vão então pela ‘world peace’. Fica bem e eu até sou boa pessoa. Tenho é sonhos maus. Olha e vai uma por esses também. Ai se a minha mãe visse.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O som da derrota.

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Ninguém explica os sonhos que tem.

Dia de nuvens. Nada de anormal. Da chuva agora só restava a brisa do ar e as gotas intermitentes das folhas das árvores. Mas as estradas estavam hoje ladeadas de água. E no meio de tudo isso, eu. De passagem na avenida.
Ao longe, duas entidades conhecidas. Antigos colegas de uma turma de que não me lembro de ter feito parte, de uma escola onde acho que nunca andei. Mas não é a primeira vez que sei do que falam.
Olham o carro parado na estrada, numa marcha causada pelo caos da chuva que passou. Lá dentro, o seu alvo preferido da má-língua dos tempos idos da juventude. Com ela ao lado. Ela, a sempre cobiçada, tal qual ritual tribal de canibalismo.
Nunca ousei saber se algum deles alguma vez chegou a ter por ela mais que a alarve vontade de a poder dizer sua. Não obstante, agora a olham dentro do carro. Com ele. Ele, sempre tão boa pessoa, tão pacífico e sonso, com aquela vozinha snob. Com tão altos padrões, quem o superaria também...? Enojava-os tal pessoa. Sempre assim havia sido.
Dentro do carro, não pareciam felizes. Ou talvez fosse impressão. A avenida era via de passagem rotineira e hoje a chuva não ajudava a que passasse depressa. Era disso e da espera.
'Não percebo como é que ainda estão juntos. Será ela a única que não vê?’ ‘Não sei. Mas se não vê, é porque não quer.’ Ao ouvir isto, olho para eles, esperando ver as expressões que tão bem conheço de desdém. E também vejo desilusão. Uma das que corrói com o tempo e que vai crescendo. E a petulância da adolescência desapareceu. Mesmo juntos, já não se preocupam em mostrar-se invulneráveis, donos das suas próprias vidas.
Quando de novo olho para a avenida, um acidente. Eles, dentro do carro. Olham um para o outro. Simplesmente. Calmamente. Há qualquer coisa ali. Nada mudou à volta, ninguém parece ter dado pelo carro acidentado com os ocupantes ainda lá dentro.
Olhando, ouço ‘Mas vês…? Ele vai ter sucesso, pode fazê-la feliz'.
Naquele momento apercebi-me que não desejava ouvir aquilo a ninguém, nem mesmo a eles.
E acho que voltei para trás.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sentimento de herói.

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Quando se fala, não é difícil articular as palavras. É tudo espontâneo. Mas, por algum motivo, o ser humano, detentor da palavra escrita, tem muito mais dificuldade em materializar o que diz sem quase precisar de pensar. E outras vezes sem pensar. O que é certo é que as palavras são apenas palavras, tal como estas.
Com pequenas mudanças conseguimo-nos sentir mais leves e bem-dispostos, atravessar um longo dia lidando com os problemas e continuar a sorrir e a rir e a alegrar os outros. E o que nos vale é mesmo isso, esse sentimento de herói.
Usando das palavras, chegámos aonde queríamos, conseguimos o que desejávamos. Mas no fim, ao fim do dia, quando somos apenas nós, as palavras de nada nos servem, elas não sentem, elas não vêem, elas apenas dizem. E, ao olhar para ti, não há palavras que possam dizer o que quero dizer nem conseguir o que desejo. Apenas tocar-te.

sábado, 17 de outubro de 2009

Lançamento livre.

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Já me fartei de escrever de ti.

Dei comigo a apreciar no que te tornaste. Não és quem amei, nem tão-pouco a pessoa que pensava conhecer. Cheio de preconceito infundado, julgador de acordo com os teus códigos fúteis e ininteligíveis. Estás tão distante de mim que nem que os nossos lábios se tocassem me conseguirias acelerar o coração. Sendo literal e explícito, tenho um pouco de nojo de já ter sentido o que senti por ti.
Que coisa pueril, te digo! O amor é, ao fim e ao cabo, coisa de crianças. Só as crianças têm os olhos vendados como um amante. Só elas acreditam nos contos de fadas e no 'viveram felizes para sempre'. Só elas conseguem ver o mundo de uma maneira tão suportável. Eu deveria ter crescido um pouco mais.
Embora seja mais do mesmo, a cada dia me sinto mais longe de ti. E ao mesmo tempo cada vez mais desligado do que por ti senti e deste peso pesado a que chamam amor. Já a palavra enjoa. Amor hoje é cliché.
Hoje assinala-se a tua morte. Ainda viveste mais do que eu quereria. Mas, ironia das ironias, foste-te asfixiando sozinho. E, muito sinceramente, isso dar-me-á que rir por muito tempo. Safei-me bem, comparado contigo.
Detesto a literalidade que imprimes às coisas, até a este texto. Mas vivo bem com isso, por uma última vez. Acabaste. Não voltas ao divã.

sábado, 19 de setembro de 2009

Dias.

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Eu também tenho dias maus. Dias em que não quero estar com ninguém. Dias em que não quero saber de ninguém. Dias em que fico horas a olhar para lado nenhum, a pensar no que não devo. Dias em que sou uma vítima. E o assassino. Dias em que não faço nada. Dias em que choro. Dias em que durmo para não pensar. Dias em que não gosto de mim. E dias em que só gosto de mim. Dias em que só quero poder desaparecer e recomeçar. Dias de raiva, de ressentimento, de tristeza, de desilusão, de apatia, de amor. Dias de 24 horas.
Nesses dias vejo-me de maneira diferente. Frio, áspero, bruto, superior, corajoso, destemido. Nesses dias talvez não me conheças. Mas dá-me espaço. Eu lá me levanto. E, não tarda, já te falo.

Are you the one.

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"Off I go / Where I fall is where I land"
from 'Off I Go' - Greg Laswell

Meu amor, não sei que te diga. Mas tentarei ser simples, como tu.
Sinto necessidade de te proteger. Um instinto quase paternal que me faz desejar, quando te sei triste, abraçar-te. Para que passe depressa e voltes a ser quem és. Como mereces. Mereces não sofrer e ser apenas feliz. Porque quando precisei de amizade, estavas lá. Quando precisei de me pôr a salvo, soubeste ajudar. Quando precisei de me sentir especial, fizeste-me senti-lo. Estiveste sempre ali. E às vezes só a presença.
Há tanta coisa que só agora vai começar...! Lembra-te que as desilusões vão ser muitas e sobre elas só tu tens controlo. Podes tentar esquivá-las. Ou ultrapassá-las. Porquanto que nunca percas o sentido que te rege. O teu objectivo de criação. Depende de ti e só de ti levantares-te e continuares a tentar. Haverá noites em que adormecerás de lágrimas nos olhos, sim. Outras em que sorrirás ao adormecer. E outras em que não saberás nem terás respostas mas terás esperança. Esperança de que lutarás para que amanhã seja melhor. Esperança de que algum dia não precisarás mais de procurar. Esperança de que conseguirás resolver a tua cabeça. Esperança de que serás feliz. E consciência de que nunca adivinharás os outros.
Para o bem e para o mal, o tempo sempre passa. Por isso um dia chegará o teu dia. Ou talvez até seja nosso. Até lá, esperas. Ainda vai acontecer. Só quando estiveres com os pés para a cova é que te deixarei dizer o contrário.

sábado, 25 de julho de 2009

Definição.

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"You cannot find peace by avoiding life, Leonard."
from The Hours

Tenho tentado mostrar-te o que me define. As definições têm sido muitas. As mais variadas. Nenhuma delas define. E todas o fazem.
Já vi a felicidade à distância de um horizonte e eu não sou de correr atrás do que não posso atingir. Já desejei apenas paz e com ela não me contentei. Não a atingi. E não esqueci. Mas também mudei. De ideias, de opiniões, ideologias, filosofias, o que lhe queiras chamar. Por isso, agora, eu já sonho de novo com a felicidade que procurarei e que se materializará na busca. Posso já ter parte da paz a que ambiciono. Afinal, sou eu que traço os meus horizontes. Eu lá chegarei. Com calma.
Mas lembra-te de que isto são odes de fim de ciclo. Um acaba, outro começará. O que faço hoje é recordar as definições dos últimos meses e tentar de novo mostrar-tas. Para que não me deixes esquecer que seremos felizes, um dia. Amanhã ou depois. Desde que o sejamos. Não quero voltar a sentir o que já senti. Não gosto de definições passadas nem das que já não servem. E há muitas assim para deixar para trás. Se hoje ao olharmos para ontem não nos reconhecemos, amanhã te garanto que já não seremos nós a falar de hoje. E tu conheces-me. Sabes que eu não sou de definições.