segunda-feira, 26 de abril de 2010

De manhã.

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Saiu espontâneo. Daí não se perceber. Escrevi a falar. Por isso tu nem sempre és tu, mas antes eu e também eles. Mas eu sou eu.

Não sei porque faço isto. Não sei porque te falo. Não sei porque te escrevo. Só uma pessoa eu quereria que agora me ouvisse. Não tu. Tu não me interpelas, não me respondes, não te revês em mim, eu não fui importante para ti. Nada mais fazes senão ouvir e calar. Por isso é que eu não dava para psiquiatra.
Tenho de me deixar de monstros, de pessoas más, de alter-egos opostos a mim, de merdas. Sou só eu, sou eu sem saber. O que fazer, o que pensar, o que desejar, o que buscar. Não quero ser ouvido. Quero apenas não me sentir o único.
Hoje enchi-me de solidão. Sozinho aqui, sozinho ali, sozinho muitas vezes, sozinho às vezes sem querer e outras por necessitar. Mas faz-me falta o toque, a companhia. Mais do que em qualquer outra noite. Porque há dias de tudo. E sempre haverá. Sempre há dias de tudo. Mesmo quando tudo está bem, mesmo quando tudo parece estar bem. Até nesses dias, que não duram. Não duram o dia. E eu não os posso estar sempre a fazer aparecer, acho que não consigo. Um dia estas noites levam a melhor. Porque quando o dia se faz bom, não há noite que o abafe. Eu precisava disso quase sempre. Mas quando a noite se mostra, má e desesperante como hoje, o dia parece já tão distante e já tão mal fadado que me pergunto se lá chegarei e se valerá a pena. Se tudo isto valerá a pena.
Mas tenho é de me deixar de merdas, já tinha dito. Pintar o cabelo de vermelho, pintar a manta, ser e fazer como quiser, sem ligar a patetices, a figuras ou ao escândalo. Fazer mais, ser mais. Ao menos o tempo passava mas ria-me, aproveitava e sempre via se conseguia ser mais feliz.
Um dia, sem saber como, serei. Mais que hoje. Devia deixar de me pôr a falar e a escrever para o boneco, fingindo que alguém irá perceber o que quero dizer. Mas a verdade é que monologando parece que a noite passa mais depressa. E sozinho consigo encontrar companhia. O meu amigo aparece sem conflito, fica ali. Ou então vai dormir, que não deve gostar que eu fale contigo ou escreva para ti.
Sei que precisas de tempo. Eu dou-to, mas sinto a tua falta. Talvez tu percebas. Talvez tu já tenhas tido noites assim. Talvez. Eu adoro-te, não te esqueças. Escrevi antes desta frase, que agora apaguei, de que servia que alguém nos compreendesse? O que queria eu, com isto tudo? Uma resposta não seria, que se não a tenho, sozinho não a encontrarei. Mas na solidão com que tenho tentado conviver, a quem tenho de me habituar e não fazer drama, venho a pensar que tentamos que alguém nos compreenda para que não nos sintamos sozinhos. Pensamento básico, bem sei. Mas não dá, não é? Nem sempre dá. Mesmo sabendo que alguém pensa em nós todos os dias, isso não nos chega. E queremos mais mas não podemos. Sofremos nesse dia, apertados sem saber porquê e o que fazer. Rumo fácil de perder e pôr em causa este.
Não quero com isto parecer nenhuma vítima. Sei que só escrevo dos momentos maus. Nos momentos maus, o que os faz ainda piores. Mas estas são noites que também passam. E passam mesmo com a noite. Sim, sabe que eu vou conseguindo ter momentos felizes. Tento pensar que quero um dia passar uma longa noite ou mais a contar-te histórias e a poder rir-me de recordações felizes. Mas tenho de as ir vivendo. Não será tudo mau. Talvez a felicidade se vá encontrando assim aos pedaços. Quando chegar a velho, quero perder-me em memórias. Lembrar-me disto e do resto. Ver o rumo que tudo tomará.
Sinto-o agora. Sinto-o mas é tão estúpido dizê-lo e dar-lhe forma dessa maneira. Quer falar. Ele sou eu, eu em conflito, eu sem saber. Sem saber o que mais pensar, o que mais querer, o que mais desejar, o que buscar, o que fazer. E é nestas noites que simplesmente não sei, não sei e não consigo. Nem dizer nem explicar. Não sei o que posso fazer para que isto passe. O estômago contorce-se, aperta-se e dá um nó bem justo, um nó que me abafa e me deixa sem saber se vai passar, como, quando. Só espero que de manhã passe.
Porque, agora que li, não sei. Quanto mais tu.

sábado, 3 de abril de 2010

Icarus.

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"You say you wrong, you wrong, I'm right, I'm right, you're wrong, we fight / Ok, I'm running from the light, running from the day to night / Oh, the quiet silence defines our misery / The riot inside keeps trying to visit me..."
from 'Hurricane' - Thirty Seconds To Mars

Tanto tempo. Tanto tempo na existência torpe do dia-a-dia. Tanto tempo. Sem pensar.
Momentaneamente parei no tempo. Deixei de crescer, de me interpelar e questionar, deixei de conseguir interpretar. Mas longe soava uma voz, na solidão, ora ensurdecedora ora acusadora. Os lapsos de consciência tornavam essas horas um jogo do gato e do rato, onde me escondia dela por meio de argumentos, pretextos e justificações. Onde me entretinha com o nada que fazia. Não, não, eu era o mesmo e continuava o mesmo. Apenas me adaptava.
Mas não posso. Neste mundo, não posso. Ele, que verdadeiramente sou eu, que tome as rédeas. Ele que grita de lá de dentro, desejando sair e impor-se. Seja egoísta, frio, inatingível, mas seguro, forte e corajoso. Ser magoado faz parte da vida. Magoar também.
O que me custa é a tristeza que traz com ele. Que não posso ter. A raiva, a prepotência e a arrogância que não quero ter. Porque já nem o resto consigo sentir. Já não sinto. E custa-me. Diz-me. Diz-me, por favor, o que me fará sentir-me assim tomado, diz-me o que devo fazer, como devo sobreviver. Diz-me, por favor, diz-me. Ou abraça-me e pensa comigo. Que contigo penso. Sozinho não posso. Que a realidade cai mal e é difícil de digerir.

Fantasias.

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Fantasias. Fantasias há muitas.

Tem-me parecido que, de alguma forma, o mundo me diz que não devemos fantasiar. Ser realistas. Pois na realidade existe o verdadeiro, o real. Aquilo por que devemos lutar. Acordar e viver de facto. E não posso deixar de concordar sem haver algo que me contraria.
Se o real existe, quem me diz que o resto é irreal? A ver, a tentar, a sentir, a fugir, a amar, a matar. Sou eu, ali.
Sentes-te mal porque digo isto. Mas a verdade é que por muito que te repugne saber que vives comigo e que me odeies por isto, sou eu que te suporto, que te impeço de cair na realidade que te esmagará, por muito que queiras que seja forte. Fui eu que, fantasiando ou delirando, percorri os passos do meu destino, que também é teu por seres eu, por entre aquele pinhal. Fui eu que, sozinho, o tracei naquele dia. Fui eu que tomei as decisões que hoje nos trouxeram aqui. E, no entanto, só nesse dia me consegui sentir preenchido, no rumo de algum sentido, em alucinação ou ilusão. Só nesse dia. Porque o rumo foi-se desvanecendo e os passos desaparecendo. Nos outros tu estiveste silencioso.
Só me engano quando fantasio. Preciso que me tragas para a realidade. Fala.

[25 de Janeiro de 2010]

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Formatos.

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Gostava de saber como vemos o mundo. Gostava de saber como o vêem os outros. Gostava de saber o que nos limita, o que os limita. E porquê. Gostava de não ver assim. Não apenas assim.
É nestas alturas que qualquer sentimento de superioridade de qualquer tipo, arrogância mais parece, cai por terra. Qual o direito de julgar e opinar acerca do que não vêem, do que lhes passa ao lado, daquilo que perdem, daquilo que não percebem, das diferenças tão óbvias, quando nós próprios falamos com palas? Somos vítimas da nossa própria perspectiva, tal como eles. Como pode a estranheza desaparecer no meio disto? E como pode algo mais encaixar com ela no meio? Fica o que tiver de ficar e o tempo passa. Mas claro, sem pressa.
Ouvi dizer que a vida é como um puzzle e que não devemos à força tentar desvendá-la porque só nos vai parecer cada vez mais indecifrável. Devemos deixá-la fluir para que tudo nos pareça mais fácil. Ou é de mim, ou os puzzles nunca se resolveram sozinhos nem nunca com o tempo se revelaram mais fáceis. Mas também nunca tive jeito para puzzles. Nenhum.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

13 passas.

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Nunca gostei de passas. Mas o olhar da minha mui supersticiosa mãe sempre mas fez engolir a custo. Minimizando os estragos, iam todas de uma vez.
Foi coisa que nunca percebi, tal tradição. Além disso, é a manifestação por excelência do egocentrismo. Se cada pessoa visse os seus 12 desejos realizados teríamos certamente que mudar o nome do planeta. E quem no seu perfeito juízo concederia 12 desejos a cada pessoa? Seriam mais desejos que vontades e, quando assim é, cai tudo em saco roto. Nem se sabe o que se pede. Ao menos, para compensar os que pedem todos os 12 desejos, se alguma vez pedi, foi um, e isto pelo meu fraco gosto por passas.
Cada vez acho mais parvo tanta pompa e circunstância para um dia destes, para celebrar a passagem por um ponto da órbita terrestre. Para nós, é agora. Para outros, depois. Nem o reveillon, que é reveillon, agrada a todos. Deve querer ser como Ele, o Deus.
Dirão que o que eu desejava no começo de cada ano era a tão virtuosa ‘world peace’. Mas ainda não estou a concorrer para Miss, e, além disso, acho que tal só se consegue com acção e não com desejos que fiquem bem. Quase parece o Senhor Papa que todos os anos, pela época natalícia, reforça os seus apelos de paz, variando apenas as zonas a que faz o dito apelo, consoante o que tiver aparecido mais nas notícias, enquanto permanece no seu quentinho leito de ouro, enlouquecendo as fans com um aceno. E ui ui, que se contentem que isto do reumático é pelo mal. Qual brincar ao moche. Cá em mim ninguém toca. O mais giro é que, no meio de tudo, não ter largado uma vara com a qual até se partem pernas de cardeais (finalmente tem propósito!) é que é a derradeira prova de fé. Digo eu que enfrentar tantos gorilas pensando que se chega ao Padre é que é ter fé. Nunca se pensou ver futebol americano na Basílica. Enfim, lá me desvio do assunto.
O que quero dizer é que este ano vou dedicar-me aos meus 12 desejos. E, em honra dos velhos costumes, esperarei sentado que se realizem. Assim começo as preces para 2010.
Que não tenha de me prostituir. Que não tenha de descer as Monumentais ao pé-coxinho. Que deixe apenas Anatomia III para Setembro. Que nenhum dos meus amigos fique tetraplégico, que, da maneira que sou, já sei que sobra para mim. E vão quatro. Que a minha mãe e a família do meu padrinho continuem a ser felizes. Que o meu irmão ultrapasse depressa as fases que vive. Seis. Que o meu avô festeje o seu nonagésimo aniversário e o seu nonagésimo primeiro natal. Que o meu padrinho se mantenha calmo e sereno e sem muitas desilusões. Oito. Que melhores ventos venham para a vida de outros. Nove. Nove. Nove… As últimas três vão então pela ‘world peace’. Fica bem e eu até sou boa pessoa. Tenho é sonhos maus. Olha e vai uma por esses também. Ai se a minha mãe visse.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O som da derrota.

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Ninguém explica os sonhos que tem.

Dia de nuvens. Nada de anormal. Da chuva agora só restava a brisa do ar e as gotas intermitentes das folhas das árvores. Mas as estradas estavam hoje ladeadas de água. E no meio de tudo isso, eu. De passagem na avenida.
Ao longe, duas entidades conhecidas. Antigos colegas de uma turma de que não me lembro de ter feito parte, de uma escola onde acho que nunca andei. Mas não é a primeira vez que sei do que falam.
Olham o carro parado na estrada, numa marcha causada pelo caos da chuva que passou. Lá dentro, o seu alvo preferido da má-língua dos tempos idos da juventude. Com ela ao lado. Ela, a sempre cobiçada, tal qual ritual tribal de canibalismo.
Nunca ousei saber se algum deles alguma vez chegou a ter por ela mais que a alarve vontade de a poder dizer sua. Não obstante, agora a olham dentro do carro. Com ele. Ele, sempre tão boa pessoa, tão pacífico e sonso, com aquela vozinha snob. Com tão altos padrões, quem o superaria também...? Enojava-os tal pessoa. Sempre assim havia sido.
Dentro do carro, não pareciam felizes. Ou talvez fosse impressão. A avenida era via de passagem rotineira e hoje a chuva não ajudava a que passasse depressa. Era disso e da espera.
'Não percebo como é que ainda estão juntos. Será ela a única que não vê?’ ‘Não sei. Mas se não vê, é porque não quer.’ Ao ouvir isto, olho para eles, esperando ver as expressões que tão bem conheço de desdém. E também vejo desilusão. Uma das que corrói com o tempo e que vai crescendo. E a petulância da adolescência desapareceu. Mesmo juntos, já não se preocupam em mostrar-se invulneráveis, donos das suas próprias vidas.
Quando de novo olho para a avenida, um acidente. Eles, dentro do carro. Olham um para o outro. Simplesmente. Calmamente. Há qualquer coisa ali. Nada mudou à volta, ninguém parece ter dado pelo carro acidentado com os ocupantes ainda lá dentro.
Olhando, ouço ‘Mas vês…? Ele vai ter sucesso, pode fazê-la feliz'.
Naquele momento apercebi-me que não desejava ouvir aquilo a ninguém, nem mesmo a eles.
E acho que voltei para trás.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sentimento de herói.

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Quando se fala, não é difícil articular as palavras. É tudo espontâneo. Mas, por algum motivo, o ser humano, detentor da palavra escrita, tem muito mais dificuldade em materializar o que diz sem quase precisar de pensar. E outras vezes sem pensar. O que é certo é que as palavras são apenas palavras, tal como estas.
Com pequenas mudanças conseguimo-nos sentir mais leves e bem-dispostos, atravessar um longo dia lidando com os problemas e continuar a sorrir e a rir e a alegrar os outros. E o que nos vale é mesmo isso, esse sentimento de herói.
Usando das palavras, chegámos aonde queríamos, conseguimos o que desejávamos. Mas no fim, ao fim do dia, quando somos apenas nós, as palavras de nada nos servem, elas não sentem, elas não vêem, elas apenas dizem. E, ao olhar para ti, não há palavras que possam dizer o que quero dizer nem conseguir o que desejo. Apenas tocar-te.

sábado, 17 de outubro de 2009

Lançamento livre.

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Já me fartei de escrever de ti.

Dei comigo a apreciar no que te tornaste. Não és quem amei, nem tão-pouco a pessoa que pensava conhecer. Cheio de preconceito infundado, julgador de acordo com os teus códigos fúteis e ininteligíveis. Estás tão distante de mim que nem que os nossos lábios se tocassem me conseguirias acelerar o coração. Sendo literal e explícito, tenho um pouco de nojo de já ter sentido o que senti por ti.
Que coisa pueril, te digo! O amor é, ao fim e ao cabo, coisa de crianças. Só as crianças têm os olhos vendados como um amante. Só elas acreditam nos contos de fadas e no 'viveram felizes para sempre'. Só elas conseguem ver o mundo de uma maneira tão suportável. Eu deveria ter crescido um pouco mais.
Embora seja mais do mesmo, a cada dia me sinto mais longe de ti. E ao mesmo tempo cada vez mais desligado do que por ti senti e deste peso pesado a que chamam amor. Já a palavra enjoa. Amor hoje é cliché.
Hoje assinala-se a tua morte. Ainda viveste mais do que eu quereria. Mas, ironia das ironias, foste-te asfixiando sozinho. E, muito sinceramente, isso dar-me-á que rir por muito tempo. Safei-me bem, comparado contigo.
Detesto a literalidade que imprimes às coisas, até a este texto. Mas vivo bem com isso, por uma última vez. Acabaste. Não voltas ao divã.